Crítica – Utopia Distopia

O que é utopia? Palavra criada pelo filósofo Thomas More no livro A Utopia, vem através de uma justaposição do grego antigo que significa o “não lugar”. Mas, o que é isso? Basicamente, um lugar onde se buscar estar, mas inalcançável. Uma espécie de “Paraíso Perdido” ou “El Dorado”, ambiente em que mitos já foram criados sobre a beleza exuberante desses ambientes, contudo não existem propriamente. Jorge Bodanzky retoma esse termo para tentar entender a construção da Universidade de Brasília. Em Utopia Distopia, ele refaz uma espécie de trajetória da faculdade, em busca de ser uma distopia por si só.

Você pode se perguntar por que então o nome “distopia” vem junto no título. Pois o cineasta, prontamente, já demonstra que aquele local nunca poderá se tornar um berço inalcançável. Ele precisa ser de fluxo, de possibilidade de entrada, para todos. Ao mesmo tempo, ele também foi um local de ruptura em meio à Ditadura Militar do Brasil, ou seja, mais distópico, impossível. No próprio título, já é possível ver como o Bodanzky deixa claro sua intenção com obra: entender os pilares desse “monumento” que se ergueu e transformou a vida de uma cidade por completo. Uma cidade planejada já como Brasília seria a mesma sem sua Universidade? O urbano toma conta do intelectual.

É interessante como o diretor constrói nessa realidade uma espécie de mentira contada também. Em um dos diversos momentos, ele mostra toda a arquitetura do campus daquele campo de saber, sempre dando um impacto para esse visual quase grego – assim como as palavras que originam o título do documentário. Enquanto faz isso, coloca vozes de professores e ex-alunos comentando, com alguns deles até falando mal da organização inicial de como a faculdade era feita. Ou também das diversas repressões aos estudantes no período ditatorial. Até que ponto essa realidade pode ser realmente perfeita? Nessa espécie de alusão até a própria formação do país, Jorge cria paralelos com a mentira dessa também “perfeição” criada.

Apesar desse tom bastante político, reside dentro da narrativa um outro elemento bastante desenvolvido que é a pessoalidade da Universidade de Brasília. As histórias que vemos e ouvimos de cada uma das pessoas, causam sempre uma espécie de acolhimento do local. Assim, mesmo as estruturas do campus, mostradas pelas imagens, serem sempre vazias, é como se víssemos aquilo totalmente preenchido. Em uma das primeiras cenas, por exemplo, um dos universitários na época remonta sua chegada até lá, contando como conheceu Bodanzky e outros artistas atualmente na faculdade de artes. Ele narra aquela vida, como se pudesse quase ser sentida, tratada como real. É como se o diretor tratasse aquilo com vida própria.

Em uma ode aos locais de conhecimento, especialmente sua faculdade de origem na capital do país, o cineasta Jorge Bodanzky consolida em Utopia Distopia a forma que esses locais são. Apesar de, em muitos casos, vazios de pessoas físicas, lá vivem histórias, pensamentos, realidades, e uma forma de existir. É como se, nesse contexto, estivéssemos quase sendo jogados para dentro desse mundo, tendo de viver esse ambiente diariamente. Mesmo assim, a narrativa deixa clara como são imperfeitos, construídos com base em muita luta contra diversos regimes, mas permanecendo vivos. Em tempos da busca de confronto com universidades proposto pelo governo federal, o diretor lembra como, apesar de tudo, elas irão resistir e serão eternas utopias distópicas.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *