Crítica – Little Voice (Primeira Temporada)

Séries musicais são sempre muito mais complicadas que filmes. Em obras que têm um curto espaço de duração, é muito mais prático trabalhar aqueles dentro da própria forma como o longa se comporta. Dessa forma, por exemplo, John Carney fez sua carreira, sempre trabalhou o lado das canções como uma muleta para o desenvolvimento da trama. E não muleta em um sentido pejorativo, mas sim como maneira a aprofundar aqueles personagens. Como se essas fossem representar fases e momentos da vida de cada um. É disso que Little Voice se usa para buscar um entendimento sobre cada um dos protagonistas da história. A música vive ao redor deles.

E quem é a principal é Bess (Brittany O’Grady), uma artista que trabalha como cuidadora de cachorros e também bartender. A busca de sua vida é viver de suas canções, entretanto, a pressão de se apresentar e cantar sempre a faz desistir. Ela vive com a amiga Prisha (Shalini Bathina), que está busca entender aonde quer chegar na vida, com a intensa implicância dos pais. Certo dia, Bess começa a realizar parcerias com Samuel (Colton Ryan), que toca violão no bar em que ela trabalha. O estopim para buscar seu sonho, então, desperta.

A criação da música Sara Bareilles e do roteirista Jessie Nelson possui um trabalho bem interessante em entender os elementos da sua narrativa de forma bastante direta. Com isso, o lado dramático da primeira temporada é extremamente bem representado, com as complicações da vida de cada um. A relação familiar é o principal ponto nisso. Todos os personagens sofrem por ou com suas famílias de alguma maneira. Por exemplo, a protagonista tem apenas o pai, um antigo músico de sucesso, e o irmão, que tem deficiência. Da mesma forma, Ethan (Sean Teale), um vizinho comprometido por quem ela se apaixona. As canções são sempre formas de extravasar esses sentimentos.

Porém, é curioso como os capítulos não trazem um foco primordial nas faixas – elas são muito mais anunciadoras de momentos. E, assim, ao trazer sua repetição e um elemento sempre divertido quando executadas, tornam-se extremamente grudentas. É quase uma produção pop mesmo, sem medo de realmente trazer esses elementos como catalizadores de seus personagens. O chamariz, afinal, é literalmente a música, a maneira de se cantar, a forma de se expressar através da arte, e é isso que o seriado busca trazer.

Apesar desse desenvolvimento, há um grande problema entorno dos momentos cômicos e da grande quantidade de tramas. A produção fica perdida em alguns instantes no que desenvolver. Por exemplo, toda a questão familiar de Bess acaba ficando sempre em segundo plano, para ganhar uma gigantesca relevância em um dos episódios finais, e depois também se tornar perene. O mesmo acontece com toda a questão de Ethan, que perde e ganha relevância conforme o passar dos 9 episódios. É como se realmente a narrativa não estivesse entendendo direito em qual ponto quer chegar. Quando foca nesse simbolismo da música, tudo parece se encaixar bem mais do que quando se quer falar de tudo. Algumas coisas podem também ser só mostradas.

Mesmo assim, a primeira temporada de Little Voice é bastante interessante de se acompanhar. Em uma leva de obras audiovisuais que buscam o elemento da primeira arte como forma de construção para sua história, ela faz parte inerente da maneira como consumimos a arte na atualidade. Bastante perene, mas tão dramático como. Não chega a ser um pensamento negativo isso, apenas uma constatação de como o mundo busca um entendimento sobre a atual realidade que estamos. É fato que estamos em uma nova era de pensamento sobre a música em si. A série levanta isso a todo instante, embora não feche seus caminhos com o mesmo êxito que os traçou.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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