O triste fim de Game of Thrones

Contém spoilers da 8ª temporada de Game of Thrones.

É fato que Game of Thrones terminou deixando um imenso legado e caminho a ser ocupado pelas próximas gerações. É uma série demarcada pelo início da era de ouro dos seriados até o grande boom dos streamings. Até por isso, as mais diversas pessoas na noite do último episódio disseram ter visto a derrocada das grandes obras televisivas. Parece sim ter sido um fim para um novo período aparecer. O grande problema é como esse fim se deu. Críticas dos fãs à parte, os últimos seis episódios (compostos nesse ano final) parecem ter apressado tudo ainda mais. É o triste final que poderia ter marcado época.

Tudo começou com “Winterfell”, capítulo inicial dessa temporada. Novamente, as peças de xadrez são colocadas na mesa para serem destacadas. Daenerys (Emilia Clarke) e Jon Snow (Kit Harrington) são o casal responsável por, possivelmente, comandar os sete reinos. Existem dois focos principais nessa gigantesca confusão: o Rei da Noite (Vladimir Furdik) e Cersei (Lena Headey). É chegado o momento das batalhas finais e ninguém sabe quem sairá vivo e muito menos quem sairá sentado no cobiçado Trono de Ferro.

Se toda a produção foi construída em torno desse crescimento efetivo do poder (especialmente nas personagens femininas), aqui ele atinge dimensões drásticas negativamente. Aqui, o poder é mostrado como um corrompidor de qualquer um. Isso acaba sendo parte constante – com foco nos últimos 3 episódios – em uma transformação de Daenerys. É até interessante como ocorre uma certa exploração de diversas pequenas tensões formadas, desde com Tyrion (Peter Dinklage), Varys (Conleth Hill) e até mesmo seu amante, Jon. Tudo se complica ainda mais com a revelação desse último ser seu primo, todavia é algo que parece ter sido passado bem mais por cima. Há, é claro, uma certa construção dramática, porém não forte o suficiente para o clímax do bastardo a matá-la. A Targaryen parece a todo instante vidrada em um poder dito pelas suas costas durante todo esse tempo. Não é de uma forma enlouquecida, como dito nas teorias, mas sim em um arco de destruição. Abrupto, sim. E destrutivo, também.

Toda essa correlação do poder acaba ficando mais em um plano significativo do que propriamente nas batalhas e cenas focadas na ação. Cersei, uma personagem tão complexa ao longo desses anos, acaba ficando renegada a um simples fim trágico com seu irmão, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau). São tramas construídas desde o primeiro episódio, entretanto deixadas para trás ao longo do tempo. Toda essa força da rainha é trazida para baixo com as cuspidas de fogo – aliás em um ótimo “The Bells”. Já o irmão e o amor, ele parece simplesmente ter sido deixado de lado na sua jornada de redenção. Diferente do acontecido com Theon (Alfie Allen), ele não possui uma catarse de conexão com a audiência após sua glória. Não compõe nada digno. Obviamente combinando com esses personagens das duas primeiras temporadas, não o que tinham se tornado agora.

Os Starks, apesar de tudo, talvez tenham tido sua derrocada mais satisfatória. Suas jornadas são encerradas carregando um longo período de dor e amargura. Sansa (Sophie Turner) coroada e sozinha na família; Arya (Maisie Williams) realizando uma jornada particular de exploração; e Bran (Isaac Hempstead Wright) tornando-se o rei de Westeros. Diferente das duas primeiras, o último, apesar de fazer sentido com sua trajetória, ainda há um desejo renegado ao longo do tempo. Sua vida de Corvo de Três Olhos e toda a conexão com o Rei da Noite parecem ter sido realizadas apenas em um plano também passado. Novamente, a quebra abrupta desse personagem o transforma sem muito sentido nem de estar na reunião final. Apesar disso, a mensagem política sobre memória do povo até idealiza uma certa verossimilhança com esse universo.

Ao fim de tudo, Game of Thrones finaliza sua oitava e última temporada de maneira agridoce, assim como era antecipado em seu início. Mesmo com as diversas incoerências perante os protagonistas e até propriamente uma negação de certas figuras (principalmente Dany após sua morte), existe ainda algo amargo no gosto desse final. Uma derrocada política, sobre anos de exploração e de tiranias, marcadas por mortes e guerras. Teoricamente, agora todos os reinos poderão ter um pouco mais de paz em suas vidas comuns. Parando para pensar, é construído até um lado positivo sobre esse término, algo bastante até fora da curva do início do seriado.

Se no jogo dos tronos ou você ganha ou você morre, o que acontece se ele é simplesmente destruído? Quando Drogon faz isso coloca de lado todas essas oito temporadas. Mostra a corrupção do poder em seu auge por uma simples cadeira. Talvez esse simplesmente seja o destino dos poderosos. Talvez esse seja simplesmente mais uma história. Como o próprio Sam (John Bradley-West), essas vidas se tornam histórias para a posteridade. Se tornam Uma Canção de Gelo e Fogo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *