Crítica – Bom Dia, Verônica (1ª Temporada)

Quando escrevi sobre minhas primeiras impressões de Bom Dia, Verônica, fiz a seguinte observação: “A misoginia, tanto explícita, como a casual e a institucional, e as mulheres que tentam escapar dessa sombra, são o grande foco narrativo de Bom Dia, Verônica”. Isso ainda é verdade, mas, com a chegada da temporada completa dia 1 de outubro, há uma série de “poréns” nessa temática da série, que acabam por subtrair um pouco da ideia geral da produção.

O seriado, baseada no livro de mesmo nome escrito por Illana Casoy e Raphael Montes, acompanha a escrivã da Polícia de Homicídios Verônica (Tainá Müller), que carrega uma sombra do passado: seu pai, também policial, foi acusado de corrupção e, para fugir da prisão, tentou cometer suícidio – o que o deixou em estado vegetativo. Após testemunhar um suícidio dentro da delegacia por uma mulher que não conseguiu denunciar seu abusador de modo apropriado, a protagonista se vê impelida a ir além de sua função para trazer justiça para outras mulheres, esbarrando no machismo e no ego de seus colegas de profissão.

Enquanto isso, Janete (Camila Morgado) vive um pesadelo. Por baixo da aparência de dona de casa tranquila, está uma mulher torturada física e psicologicamente por seu marido, o policial militar Cláudio (Eduardo Moscovis). Ele é um perigoso serial killer que força sua mulher a auxiliar em seus crimes. Em breve, as vidas dessas três pessoas irão se cruzar, com graves consequências para todos.

Se os três primeiros episódios da produção revelavam uma dificuldade em encontrar um tom para sua narrativa, esse problema – infelizmente – persiste ao longo da temporada. A série tenta navegar um caminho entre algo mais sério e complexo, como a discussão sobre misoginia institucional, mas também conta com aspectos bem caricatos e unidimensionais. Não é raro alguém soltar uma frase clichê ao longo da trama, como “a justiça serve pra nada!” e outras “frases prontas” para expressar indignação ou seja lá o que a cena pede.

É curioso como Bom Dia, Verônica se sabota ao acrescentar outro elemento a já carregada trama, que envolve uma misteriosa organização que se infiltra em todo o sistema político e policial brasileiro, e que envolve o passado de Verônica e também tem relação com Claudio. Para uma série que tem como ponto de partida mostrar como nossa estrutura policial falha com as mulheres, e também o machismo entranhado nas nossas relações, colocar uma conspiração do mal por trás de tudo acaba criando uma espécie de excepcionalismo com aquela situação. Não é como se o machismo fosse algo normalizado, são essas figuras que são maléficas. Essa trama também acaba afastando Verônica das tribulações de Janete, resultando em histórias que cortam uma a outra.

O que começa com uma proposta de discussão séria sobre os problemas que mulheres enfrentam no seu dia a dia e as dificuldades de denunciar abuso, termina na luta de uma mulher contra uma conspiração maligna. Não é de todo mal, já que o final da temporada posiciona melhor a personagem para esse conflito, mas gera uma estranha dissonância nessa primeira temporada. 

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