Jesus is King e o novo olhar divino de Kanye West

Em Yeezus, de 2013, Kanye West cantou “I Am a God”. Talvez fosse o ponto mais alto de todo o seu trabalho e em uma relação de eu-Deus. Ele se assumia como uma figura suprema da criação artística – algo que o mesmo não renega até os dias de hoje, dizendo que é “o maior músico de todos os tempos”. Concordando ou não, essa ideia egocêntrica ficou bastante marcada na carreira do rapper, passando desde suas colaborações até polêmicas. Apesar disso, o mesmo vinha assumindo, desde The Life of Pablo, em 2016, uma postura de se entender como alguém também no meio do universo.

Kanye começou a realizar os chamados ‘Sunday Service’, que eram celebrações a Deus. Uma espécie verdadeira de cultos, só que possuíam uma ideia maior em relação a adoração, partindo para um lado de celebrar através da música. A religião era algo até menor, visto que o trabalho presente buscava quase uma relação bem pessoal entre cada pessoa presente. Diversos são os vídeos, por exemplo, do cantor passando no meio do público e abraçando cada um dos presentes. Toda essa sua relação espiritual bem particular, começou a aflorar uma vontade na realização de alguma outra coisa. Assim, surgiu Jesus is King, uma espécie de comemoração para com a fé.

A partir disso, West se assume em um papel quase secundário. Ele, obviamente, utiliza-se das músicas para trazer sensações e discussões, contudo a sua busca é por uma relação verdadeira de adoração. Ele sai da figura do ‘Eu-Deus’, para venerar a outro Deus. É uma espécie de quase contradição a si mesmo, todavia sua busca dentro desse CD é realmente a compreensão disso. As diferentes formas de se buscar no mundo, as diferentes maneiras de perceber a si mesmo perante as religiões e a crença. O trabalho buscado é realmente filosófica ao gerar uma profunda reflexão sobre o papel da ideia de Jesus no cotidiano das pessoas.

Esse fato gerou diversas comparações com Tim Maia, em seu período mais religioso musicalmente. Quando fez Tim Maia Racional Vol. 1 e Vol. 2, em 1975 e 76, o brasileiro buscava mais uma concepção única sobre fé. Era um trabalho realmente bem particular, quase como se estivesse fazendo para si mesmo esses dois álbuns. Kanye tem uma transe mais relacionada ao fator racial, ele busca uma afirmação da força da produção negra no trabalho gospel. Sua intenção, acima disso, parece ser verdadeiramente levar a todos a entender qual a verdadeira questão sobre Deus. Ele é rei em uma concepção, certo, contudo como ele toca cada um?

E é por isso que tudo começa com um coral, trazendo um antagonismo a voz única do rap. O coro, aliás, em “Every Hour” mostra bem como existe um fator emotivo a ser trago no desenvolvimento narrativo e musical desse trabalho. O DNA gospel, como um forte componente da cultura negra, é colocado de frente. Isso ainda é repetido em outros versos e outras faixas. Por exemplo, em “Everthing We Need” e “Use The Gospel”. As vozes nunca estão sozinhas quando vão celebrar algo religioso.

Ao assumir uma postura quase secundária, Kanye West se coloca como um ser de reflexão. Ele não assume um papel de destaque, diferente de toda sua discografia até agora. Positivamente ou negativamente, West tenta trazer um olhar novo para a forma na qual vemos toda a relação da música negra com as divindades. A sua veneração mostra quase que todo esse ritmo, é também o ritmo de Deus. Mas, a ideia figurativa de Deus também é muito mais complexa aqui, elucidada através mais da fé. Por isso, para ele, Jesus é Rei, como diz o título do álbum. O Rei em um sentido de domínio humano. Domínio esse de uma percepção que estamos apenas vivendo. Vivendo para criar, assim como ele.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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