Marjorie Prime e a preservação da memória

They say everything can be replaced
They say every distance is not near
So I remember every face
Of every man who put me here

Fazer um filme que se passa em um período ainda desconhecido para a nossa civilização, sobre a memória enquanto artifício de conexão entre passado e presente, sem entrar em demagogias futuristas e sem se utilizar de aparatos tecnológicos para construir a ponte entre o pensar e o agir, é algo que exige uma compreensão apurada dos sentimentos humanos e da capacidade humana de se reinventar em si mesma sem precisar de mais nada.

Em Marjorie Prime (2017), filme estadunidense de Michael Almereyda inspirado em uma peça de teatro de mesmo nome, o uso do corpo, do fator presencial, e das expressões que fazemos que modificam a musculatura do rosto, propiciando o sentir, a materialização de sentimentos carregados de emoção, é de suma importância para a conotação que o passado acaba ganhando enquanto fomentador do presente, como um close do rosto de Cameron Diaz em O Casamento do meu Melhor Amigo pode dizer muito sobre uma vida, assim como um cão correndo na areia. São imagens que, quando condicionadas às experiências de uma pessoa no leito de morte, vivendo sem muito propósito, ganham força pautada no simbolismo, na apropriação que essas imagens têm sobre uma história de vida.

Essas imagens acabam se tornando uma projeção do que aconteceu há muito tempo sob a ótica de quem as enxerga com a totalidade dos anos vividos ao longo das décadas. Almereyda opta por apresentar o arco da história, os chamados primes, hologramas que reproduzem fidedignamente a imagem de entes queridos que já morreram, sendo alimentados por relatos de pessoas próximas para que tenham cada vez mais informações a respeito do falecido, já indo direto ao ponto, sem condicionar os primes como um produto de mercado. Logo no início do filme, vemos uma conversa casual entre Marjorie (Louis Smith) e Walter (John Hamm), sem que ainda saibamos que, na realidade, ela está conversando com uma imagem projetada de seu marido, uma versão idêntica dele no ápice de sua juventude, sendo essa a memória que mais chamava sua atenção em relação a ele.

Assim como os primes, a memória precisa ser libertada. Ocultar por muito tempo uma informação, como a morte de um filho, e fingir que o fato não existiu, não vai fazer com que o acontecimento seja menos doloroso, só vai aumentar a dor a cada vez que alguém tocar no assunto. Por isso memórias não são totalmente confiáveis, como mostra uma das últimas cenas do filme, em que os hologramas conversam entre si e você percebe que cada um tem uma informação diferente sobre os mesmos fatos. As imagens formadas por memórias dependem da potência da oratória para serem expressas inteiramente ou em fragmentos.

Sendo assim, quando a filha de Marjorie, Tess (Geena Davis), guarda para si informações a respeito da morte do irmão e de sua relação com o cachorro da família, ela só vai tornar visível o que ela quer, como se tivesse pintando em um longo quadro apenas o que passa pelo processo de filtro do que pretende mostrar a seu público-alvo, a pessoa que se coloca como ouvinte, seja espectador ou algum outro personagem do filme.

Pouco a pouco, todos os personagens do filme envelhecem e morrem, inclusive o marido de Tess, Jon (Tim Robbins), mas não é o futuro que interessa a Almereyda, tanto que o filme é bem econômico em questões cenográficas, sendo passado quase que inteiramente em uma casa perto do oceano, ambos guardiões de boa parte das memórias da família. O futuro visto em tela é meramente um artifício escolhido de maneira simbólica para representar a passagem do tempo, e não uma contextualização de uma nova época. Dessa forma, Marjorie Prime é um filme que se pauta na universalização da memória através do uso de hologramas.

Podem passar anos, décadas ou séculos… Nós sempre teremos uma câmera acoplada no nosso interior, que nos permite tirar fotos sem o uso de dispositivos técnicos e agrupá-las em memórias que resistem às rugas do tempo, firmando território em solo urbano, vendo as pessoas de carne e osso nascerem, viverem e morrerem, enquanto ela sobrevive para contar histórias, para se fundir em outras narrativas, para ser.

Há uma cena no filme em que Tess escuta uma música que a mãe adorava ao lado da imagem projetada, ou seja, da memória que Tess escolheu guardar, da mãe. A música que unifica as diferenças existentes entre mãe e filha e as organiza em um plano espiritual é I Shall Be Released, escrita por Bob Dylan e executada em estúdio pelo The Band. Curiosa a escolha da canção, pois fala, no plano denotativo, sobre um prisioneiro que pretende ser libertado de sua prisão. Se pararmos para refletir, o que são memórias senão prisioneiras de nós mesmos, imagens que, quando libertadas, ganham vida no plano terrestre, materializando Cameron’s Diaz e cachorros reprimidos? Pois bem, memórias são partes de nós, e ao receberem tratamento humano, o filme de Almereyda acaba abrindo espaço para uma discussão profunda sobre a importância que devemos dar aos fatos que permearam nossas vidas.

Comentários

Pedro Daher

Tenho tantas ideias quanto cabelo na minha cabeça, e dizem, e eu concordo com quem diz, que gosto de transportar o que se passa em minha mente inquieta para o papel físico ou para o texto reproduzido na tela do computador. Entre minhas principais paixões estão vários elementos que compõem a cultura pop, como a música e o cinema, em suas mais diversas formas, e a escrita que traduz em sentimento esses interesses.

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