O experimental pop em Be The Cowboy, de Mitski

Diferente dos últimos anos, os álbuns de maior sucesso na crítica em 2018 fugiram um pouco da música pop e/ou o rap tradicional e chegaram ao indie (sinônimo de independente) e o experimental. Além disso, alguns famosos artistas dos gêneros de grande público buscaram também trabalhar novidades dentro de suas produções, como é o caso de Janelle Monáe com seu aclamado Dirty Computer. A cantora de 27 anos Mitski, que já havia lançado quatro álbuns sem tanto destaque anterior, chegou com Be The Cowboy nessa metade do mês de agosto, uma obra que ostenta na sua pegada eletrônica, mas não esquece suas raízes experimentais e muito diferentes. Nada mais certeiro que divulgar nesse ano.

Existe toda uma estética focalizada nos valores e questões pessoais dentro dessa produção, que diferem bastante do que geralmente é discutido tematicamente no gênero mais alternativo, aonde os relacionamentos são o foco principal. A artista busca uma alma própria, algo quase egocêntrico sem um teor negativo, já que a personagem criada para a narrativa dessa pouca mais de meia-hora é alguém altamente melancólico. Isso se mostra em diversas letras, como no início e no fim, em faixas como “Geyser” e “Two Slow Dancers”.

É também colocado, junto com o que foi posto acima, uma certa nostalgia de situações anteriores, aonde não se pode deixar interferir nos dias atuais. Mitski se mostra, do mesmo modo, dentro de uma sociedade em que o ‘eu’ se torna um valor extremamente central e os valores virtuais importam mais que os sociais. Todos esses pontos adentram na linha voltada ao eletrônico dentro do disco, que parece sempre parte apenas de algo bem maior. Isso, inclusive, é corroborado pelas batidas não serem tão feitas por um DJ, mas sim por baterias reais, como se o objetivo fosse alcançar o nosso mundo dentro dessa outra visão. Pensamento esse que é extremamente jovem, o que de fato mostra ser à quem se destina esse trabalho, no fim das contas.

Falando sobre a sonoridade, é intrigante pensar como ela não segue um padrão comum, um denominador altamente simples. Os maiores exemplos disso estão em cima de “Why Didn’t You Stop Me?”, “Remember My Name” e “Nobody”. A primeira que possui uma batida extremamente dançante – lembrando bastante Belle and Sebastian -, mas que ainda possui uma vibração dos teclados que caminham a um passo do psicodélico. Já a segunda, puxa uma atmosfera mais próxima de PJ Harvey, com guitarras e baterias marcando bastante a letra e a voz lírica da cantora, bem mais próximo do grunge. Por fim, a última consegue passar uma sensação de um indie pop claro, com uma influência bem próxima de St. Vincent, mas chegando a flertar até com – pasmem – a MPB.

Há ainda um espaço bem montado para a visualidade que a obra transporta na cabeça dos ouvintes. Isso pode ser visto de maneira clara nos clipes lançados – como os de “Nobody” e “Geyser”, lançados até agora -, mas, da mesma forma, na capa. A criação da persona que busca se entender, como foi falado acima, é expressa sinteticamente na artista olhando para uma espécie de espelho e passando rímel. Além de gerar uma essência no trabalho, existe também questionamento feito ao público: e vocês? já se olharam no espelho?

Be The Cowboy se solidifica como um dos melhores álbuns do ano, tanto pela sua originalidade musical quanto por seu mérito de conseguir passar uma comunicação bem clara com os tempos atuais. Mitski, apesar de ainda não tão conhecida do público geral, consegue se firmar com uma alma propriamente sua, mesmo que venha de diversas influências variadas. É um trabalho que mostra como a experimentação (diferente do experimental) na primeira arte entrou de vez em pauta e chegou a hora dos artistas buscarem sua voz nesse meio.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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