O Vampiro da Noite e o medo do desconhecido familiar

Existem filmes que fazem história dentro de um gênero cinematográfico, assim como existem histórias que marcam todo o imaginário popular por décadas.

Um nome que une ambas essas categorias é o Conde Drácula, eternizado pelo livro homônimo publicado em 1897 por Bram Stoker. O personagem já havia tido uma adaptação em 1931, dentro do famoso universo de monstros da Universal – formado também por Homem Invisível, Frankenstein, A Múmia, entre outros. É errado também não comentar o clássico do expressionismo alemão, Nosferatu, de 1922, que, mesmo não sendo uma adaptação “legal” da obra, é uma das tramas mais clássicas de vampiro da sétima arte. Chegando no ano de 1958, a Hammer Films, estúdio inglês que ainda engatinhava no período, resolveu criar sua própria versão ao personagem, realizando O Vampiro da Noite. Muito mais do que um sucesso, o longa marcou algo que as produções de horror nunca mais esqueceriam: o medo do desconhecido familiar.

Existem diversos motivos que fazem esse filme ser marcante dentro da sua estrutura narrativa e, talvez o mais trabalhado de todos, é saber como explorar o horror. É inegável que o público do final dos anos 50 não era o mesmo que tinha se assustado com a performance de Bela Lugosi. Havia uma necessidade de saber como re-trabalhar o vilão. O Drácula, por si só, é uma figura amedrontadora e necessitava de um ator que conseguisse passar toda a imponência necessária para o papel, algo que Christopher Lee, um dos nomes mais famosos do período, soube fazer de forma magistral. Não apenas pela sua presença corporal, mas também seu tom sempre superior, quase como se fosse um rico esquisito, isso na primeira metade, faz com que a virada para o sanguinolento seja extremamente inesperada, assustando telespectadores até hoje.

O que foi dito acima se trabalha também dentro da direção de Terence Fisher (o maior cineasta da produtora britânica), já que, após os 30 minutos iniciais, o grande antagonista é praticamente esquecido visualmente. O que é mais intrigante é que ouvimos falar dele o tempo inteiro, criando uma imagem concreta na cabeça do espectador sobre o perigo que espreita. Essa é um dos conceitos básicos do terror psicológico, sendo funcional até os dias atuais – não à toa que o chamado “pós-horror” é baseado exatamente nessas convenções dos anos 50, 60 e 70. O grande ponto está na popularidade que a figura do Drácula possui na cultura ocidental, tanto atualmente como no período de lançamento. Já havia uma imagem estabelecida na cabeça das pessoas de como ele se portava e era. A virada está na maneira que o diretor se utiliza disso para criar mais medo e tensão, ou seja, no fato de que, mesmo conhecendo e reconhecendo se o víssemos, não sabemos onde ele se encontra. Isso é passado de uma maneira tão assustadora, que a cena em que o vilão aparece no quarto de uma personagens, já para a metade da narrativa, é bizarra, causando diversos frios na espinha.

Para a existência de um bom antagonista, no entanto, precisa haver o equilíbrio de um herói construído tão bem quanto. Isso não é esquecido dentro dos arquétipos entre “bem contra o mal” presentes no roteiro. Peter Crushing, que ironicamente ficaria ainda mais famoso interpretando um vilão em Star Wars, faz um Doutor Van Helsing que perpassa não apenas carisma, mas determinação. Ele é um perfeito combatente, já que não tem medo de morrer. Seu único objetivo é combater o mal encarnado, que assola como uma doença (nesse caso, quase literalmente) os habitantes da cidade.

Outro ponto que torna a maneira de contar a história do filme tão marcante, responsável também pelo próprio texto, é o embate final entre esses dois protagonistas. Existe algo muito maior do que simplesmente a dualidade comum citada acima. Pode-se também realizar um questionamento dessa disputa bíblica, algo que fica ainda mais claro com a morte do vilão pela cruz colocada perante ele. O pomposo e demoníaco (algo bem mostrado na imagem em destaque dessa postagem) é combatido com a força da fé e ideais cristãos. Não que a obra glorifique um e demonize o outro particularmente, mas isso é um elemento intrínseco ao trabalho de Stoker há mais de 100 anos. Os questionamentos e o que ele vivia na época não só permanecem atuais, como também permanecem um tabu.

O que poderia ser mais cristão que ter medo de algo que se desconhece, mesmo que seja familiar?

O Vampiro da Noite é um filme que transpira o seu tempo em influências para o cinema, denotando uma forma de contar histórias de terror. O medo, esse sentimento tão único para qualquer pessoa, pode ser também um sentimento coletivo, quando algo consegue trabalhar isso de uma forma tão única. Ainda que esse sentimento não atinja a todos, esse longa consegue chegar nos realizadores atuais em como forjar o terror. Até porque, sejamos sinceros, o horror sempre foi algo relacionado ao ser humano, falta sempre só alguma coisa para lembrar disso.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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