Por que ler ficção-científica?

Inspirado no vídeo publicado pela Editora Aleph na Bienal do Livro de São Paulo desse ano, resolvi ter uma reflexão a cerca do porque ler obras de ficção-científica. Essas, já marcadas na história da humanidade há muito tempo, sempre refletiram algo sobre o mundo em que o autor/autora escreveu. Isso é um fato mais do que apenas relevante, mas também intrínseco sobre o entendimento de humanidade, já que buscamos sempre sair dela mesma.

Então, para que serve esse subgênero literário? Renegado desde seu nascimento, ele talvez tenha trago livros (além de filmes, séries, quadrinhos e mais) extremamente marcantes para o pensamento da história. Um das questões mais interessantes sempre apontadas no estilo é observar o futuro. Seja ele positivo ou negativo perante ao protagonista, esse pano de fundo é fundamental para essa fuga da realidade ser perfeita. Um dos exemplos mais claros e clássicos talvez seja o debate de gênero proposto em A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin. Ela fala sobre um lugar em que o gênero pouco importa, já que os seres híbridos desse planeta podem trocar para órgãos reprodutores masculinos ou femininos, o que gera um embate não apenas do personagem em que acompanhamos, mas no público leitor. Esse desafio da reflexão – algo bem filosófico mesmo – acompanha a arte desde seu nascimento, porém a fantasia leva esse debate para lugares que nem imaginamos.

Arte de A Mão Esquerda da Escuridão

Outro pensamento sobre o tema é o fato das raças não-humanas serem uma constante nas obras do gênero. Nos deparamos com aliens, seres modificados, nós mesmo no passado ou futuro e até macacos. Queria pegar esse último como maior destaque devido a O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle, ser um fenômeno cultural ao longo dos últimos 50 anos. A história, em que transforma a nossa raça em animalescos e os primatas em racionais, fala totalmente sobre como enxergamos o mundo de uma ótica superior. Todavia, já abrindo mais portas, essas outras espécies servem como forma também de “abaixar a bola” da maneira que enxergamos tudo. De tanto ser usada, essa maneira de contar a narrativa acabou se tornando comum, sem mais chocar tanto mostrar uma outra civilização mais desenvolvida tecnologicamente, contudo é chocante pensar ainda que podemos não ser nada e nem ter significado nada para o universo.

Aliás, é intrigante pensar como o fantástico  está muito mais ligadas a questionamentos das ciências humanas do que propriamente das ciências de matemática ou da natureza. Apesar de, novamente, o pano de fundo para se contar é sim – na maioria dos casos – amplamente biológico, físico ou matemático, os questionamentos e diálogos trazem uma profundidade humana e existencialista única. Até porque o ato de ler é solitário, na qual nos confrontamos apenas com a nossa própria cabeça, que pode gerar qualquer coisa em cima do que absorvemos de letras e páginas. Acabei paradigmatizando como isso funciona de um jeito bem ruim, mas a ideia é como nos confrontamos o tempo todo apenas com o autor, em um diálogo direto até meio bizarro.

Arte de A Guerra do Velho

É meio masoquista pensar que a ficção-científica traga questionamentos tão cotidianos para a nossa vida. É fato que poderíamos ter observado isso olhando para nossos próprios pés, porém nada mais incrível que embarcar em uma jornada em busca de entender quem somos e de onde viemos. Afinal, o ser humano tenta entender isso desde que o mundo é mundo. E, afinal, é pra isso mesmo que esse gênero existe: para nos fazer pensar coisas que nem a própria ciência consegue contar.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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