Resenha – Rede de Sussurros

Rede De Sussurros: Um thriller feminista da era #MeToo” e é assim que o livro está sendo vendido, então, antes de começar a falar sobre, vamos entender um pouco do #MeToo. É um movimento contra assédio e agressão sexual no qual começou a se espalhar viralmente em outubro de 2017, como uma hashtag nas mídias sociais. Um levantamento realizado pelo jornal The New York Times, mostra que mais de 200 homens influentes perderam seus cargos depois de serem acusados publicamente de assédio. Apesar da repercussão em 2017, o nome foi criado anos antes. Em 1996, depois de escutar o relado de uma criança de 13 anos que sofria abuso do padrasto, a ativista Tarana Burke não teve coragem de dizer a ela: eu também. Dez anos depois, em 2006, Tarana cria o movimento para aumentar a consciência acerca da crescente generalização do assédio e abuso sexuais na sociedade norte-americana, que hoje é conhecido pelo o mundo todo.

Sinopse:  Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham há anos na Truviv, uma empresa de roupas esportivas. As três sempre se ajudaram, passando por promoções empolgantes, reuniões intermináveis, casamento, maternidade, divórcio e os desafios impostos pela política no escritório. Elas também têm seus segredos e cada uma fez algo de que se arrepende. Com a morte repentina do presidente da empresa, tudo indica que Ames, o chefe delas, será alçado à liderança da companhia. Ames é um homem complicado, que as três conhecem há muito tempo e que sempre esteve cercado por sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas. Esses sussurros vinham sendo ignorados, varridos para debaixo do tapete e acobertados por aqueles que estão no poder. Depois de descobrirem que Ames adotou uma conduta inaceitável em relação a uma nova funcionária, elas decidem falar. E essa decisão provoca uma mudança catastrófica no escritório.

Quando a garota nova chega na empresa, Katherine, as três mulheres logo se aproximam dela, fazem questão de chamá-la para o time antes que se junte ao time de Ames. Quando Sloane, quem teve um caso com Ames, percebe uma proximidade entre ele e Katherine, ela busca maneiras de alertá-la do perigo que está se metendo. Quando descobre uma planilha rondando a empresa sobre ‘Homens CILADA’ (Homens de Comportamento Infame, Libertino e Amoral de Dallas e arredores),  decide acrescentar o nome de Ames para que chegue a Katherine de alguma maneira. Apesar do caso ter terminado há anos, Ames ainda utiliza de artifício de manipulação contra Sloane, sendo misógino em suas diversas facetas. Ames sente necessidade e prazer em ter poder sobre as mulheres, seja por agressões “pequenas” como bropriating (acontece quando o homem se apropria da mesma ideia já expressada ou realizada anteriormente por uma mulher, levando os créditos por ela. Cenário recorrente em reuniões) ou mais graves, como estupro.

Havia uma centena de coisas pequenas e grandes que se interpunham entre nós e nosso trabalho todos os dias, coisas que variavam do incidental ao nefasto. Por isso, quando falávamos que preferíamos que não nos pedissem para sorrir durante o trabalho, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso trabalho, por favor. Quando falávamos que preferíamos não ouvir comentários sobre o comprimento da nossa saia, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso trabalho, por favor. Quando falávamos que preferíamos que não tentassem nos tocar em nosso escritório, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso trabalho, por favor.

Embora seja vendido como um thriller, não leia esperando por um.  Os capítulos são alternados entre o presente e um futuro interrogatório sobre a morte de alguém da empresa, mas, apesar do esforço, não causa suspense algum. O livro falha em instigar o leitor a querer descobrir qual é o crime e o que está por trás dele. Além de passar longe do gênero proposto, eu tive muita dificuldade em me conectar com as personagens, talvez seja o motivo da leitura ter sido arrastada. Cada capítulo incia com uma reflexão da autora sobre os problemas que as mulheres enfrentam na sociedade, mais precisamente em seus trabalhos, porém, ao terminar essas digressões, muitas vezes só conseguia enxergar as três protagonistas – descritas como brancas – como fúteis e sem conhecimento nenhum de seus privilégio. Ainda temos outra personagem importante nessa história, Rosalita, uma faxineira da Truviv, bem distante da realidade das protagonistas. Ela é uma imigrante não-branca tentando dar do bom e do melhor para o filho que ela cria sozinha. Me indago se a proposta da autora era mostrar a diferença entre a vida das protagonistas com a de Rosalita, mas, infelizmente, não soube desenvolver muito bem, ou se Rosalita era apenas uma peça chave para a resolução da história.

Como assédio sexual era uma coisa que acontecia com mulheres, acredite ou não, não gostávamos de admitir que tínhamos sido assediadas. Isso seria o mesmo que admitir que o fato de sermos mulheres importava.

Eu definiria esse livro como um manifesto para as mulheres, não só apenas para quem sofrem abuso no ambiente de trabalho dominado por homens, todavia para todas que conheceram o assédio a vida inteira. A escritora Chandler Baker também aborda a naturalização do assédio desde a infância por meio da filha de Sloane, enquanto professores e diretores agem como se fosse uma brincadeira boba entre meninos e menina, a mãe faz de tudo para proteger a filha. Inclusive, o tema maternidade é bastante discutido e também um fator essencial na vida dos personagens, principalmente na de Grace que acabou de ter uma filha e não compreende o motivo de não ser igual as outras mãe, isto é, não tem afeto pela filha.

Apesar das críticas, ainda é uma obra significante na luta das mulheres, dando voz para se levantarem contra seus assediadores e abusadores, deixando, a cima de tudo, uma mensagem muito importante: você não está sozinha.

O livro trazido pela editora Intrínseca e passou pelo Hello Sunshine, clube do livro da Reese Witherspoon que apenas indica escritoras mulheres. Se quiser saber mais sobre o clube clique aqui. 

Comentários

Ana Barbosa

Estudante de Jornalismo, feminista e enaltecedora de mulheres na arte. Viciada em séries, principalmente em Doctor Who, compra mais livros do que consegue ler e não recusa um café. A típica canceriana que chora em todos os filmes que assiste, ou pelo menos quase todos.

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