Mistério no Mediterrâneo e o suspense cômico

A comédia mundial se encontra em um momento complexo. Com grande parte dos filmes destacados por uma repetição de ideias e temas, fica complicado sair do lugar comum. Ainda mais quando – a cada ano que passa – é dado os mesmos espaços para nomes como Adam Sandler. O cineasta e ator, que gosta de se repetir e sempre trazer piadas de cunho duvidoso, traz Mistério no Mediterrâneo como seu novo trabalho. Aqui, Sandler até busca novidades ao trazer esse clima de suspense misturado com comédia. O grande problema é, novamente, a funcionalidade totalmente negada aqui.

Na trama, temos Nick (Adam Sandler), um policial que busca há muito tempo chegar ao posto de detetive na sua delegacia. Ele acaba sempre enganando sua esposa, Audrey (Jennifer Aniston), que está cada vez mais revoltada devido a falta de romantismo por parte do marido. Certo dia, no aniversário de 15 anos de casamento, Audrey resolve cobrar de uma antiga viagem para a Europa prometida por Nick. Ele, então, a leva para esse passeio juntos. O grande problema é o fato de encontrarem o rico Charles (Luke Evans) no meio dessa situação. O milionário, então, os leva para uma festa no barco, onde acaba ocorrendo um assassinato.

Um dos poucos acertos da direção de Kyle Newacheck é deixar um clima meio espalhafatoso sempre no ar. Inclusive, isso funciona bastante pela química dos dois atores principais. Kyle trabalhar alguns elementos de maneira sempre meio espontânea, como se estivessem achando interessante resolver aquela situação. Existe, nesse quesito, uma memória até dos desenhos de Scooby-Doo e dos grandes momentos de Assassinato no Expresso Oriente, de 1974. Quando essa brincadeira toda da narrativa é assumida, cenas mais diretas na comédia geram uma comicidade natural, como quando o casal está fugindo pelo alambrado do hotel. O maior problema é isso não entrar no lado mais engraçado em si, por causa do equilíbrio fraco entre o suspense e a piada.

Sendo assim, existe uma tentativa até de criar uma base dramática no longa. Isso acaba sendo sustentando mesmo por especialmente por duas sequências específicas: aquela em que Audrey está no salão de beleza e a discussão antes da morte de Malcolm (Terence Stamp). Obviamente, é impossível esperar um maior desenvolvimento do drama em uma história focalizada na graça, entretanto isso acaba por ser minimamente imprescindível quando a mesma história baseia sua resolução nisso. Isso compromete bastante todo o segundo ato, em uma tentativa frequente de criar a expectativa da resolução sempre de lado. Apesar dos personagens sempre estarem envolvidos, eles não estão nesse peso especificamente. Nesse quesito, Corra Que a Polícia Vem Aí, de 1988, acaba sendo bem melhor.

Com base nessas questões, a encenação de Newacheck gosta de ludibriar o telespectador. Ao demonstrar um humor mais físico de alguns personagens, como de Maharajah (Adeel Akhtar), tudo leva a crer esse caminho. Entretanto, a narrativa pouco explora as possibilidades de fisicalidade presentes no ambiente, ainda mais quando o mesmo é desconhecido aos protagonistas. Isso ainda reforça o fraco desenvolvimento desse relacionamento de ambos, sempre pautado em uma noção do que propriamente algo. Se existe algo na qual coloca os dois em cheque na trama quase inteira, seria um pouco impossível não abordar fugas, planos e mais. Porém, a busca é sempre por trazer a personalidade bizarra de Nick para a superfície.

Mistério no Mediterrâneo parece um filme interessado em fazer algo totalmente raso para trazer um sentimento. Basicamente, parece um exemplar igualmente genérico da filmografia de Adam Sandler. Há certos sentidos interessantes em que poderiam demonstrar mais facetas da sua narrativa. No fim das contas, um caso na qual possui uma intensidade de drama acaba sendo deixado de lado para uma repetição humorística. O que parece sobrar disso tudo? Apenas nada. A comédia americana precisa dar espaço para as obras mais independentes buscar mesmo seu caminho na comicidade.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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