O Brasil reimaginado em O Pico da Neblina

Em uma das cenas do primeiro episódio de Pico da Neblina vemos uma discussão no congresso nacional sobre a descriminalização da maconha. Tal projeto, que poderia ser quase impossível dentro dos parâmetros atuais brasileiros, ganha voz nessa sociedade paralela, pode-se dizer assim. Lá, a maconha é legalizada para a venda e para o uso, havendo a possibilidade de transformar em um grande novo meio de comércio. É a partir desse ponto que a nova série brasileira da HBO começa.

Contando nessa primeira temporada com 10 episódios, cada um com cerca de 1 hora cada, a obra começou a ser exibida pelo canal no último domingo e será durante as próximas dez semanas – sempre no horário das 21h. Diversos lugares verão essa narrativa, como Estados Unidos, Alemanha, Espanha, parte da África, entre outros. Se o debate sobre a legalização das dogras já está exposto claramente pelo mundo inteiro, aqui não é nada diferente. A possibilidade de um país dessa forma abre margem na produção para explorar as mais variadas situações.

E uma dessas é aonde ocorre a trama principal. Sobre o jovem Biriba, interpretado por Luiz Navarro, na qual vende uma erva especial criada por ele, realmente aos moldes de Breaking Bad. Todavia ele tem um problema gigantesco quando começa a perder clientes por causa da maconha começar a poder ser comercializada por qualquer um e de qualquer forma. Sendo assim, ele precisa descobrir novos jeitos de fazer dinheiro, ficando dividido entre trabalhar de um jeito mais ilegal com seu amigo de infância Salim, feito aqui por Henrique Santana, ou comercializar a droga em uma loja numa região mais rica de São Paulo, com Vini, feito por Daniel Furlan.

Apesar dessas questões, poderia até se esperar uma certa mudança de tom ou rumo devido a toda questão política envolvida. Apesar dessa discussão não estar em torno dos principais assuntos do Brasil no último ano eleitoral, esse fato pode ser percebido como um dos responsáveis pela eleição do atual presidente no país, especialmente pelo lado moral. O diretor Quico Meirelles, filho do cineasta Fernando Meirelles, no entanto, preferiu não alterar o que já estava sendo pensado.

“Se fosse para mudar alguma coisa, eu faria para ir mais fundo e enfiar o dedo na ferida. Sou da teoria de que qualquer polêmica é bem-vinda para criar interesse pela série”, comentou ele em entrevista ao jornal O Globo. “Não fizemos nenhuma mudança, até porque não tínhamos como saber o nível de manchetes e assuntos absurdos que vemos todos os dias”.

Nesse ponto sobre o lado político da descriminalização existe também o fator sobre como o assunto é tratado pelas políticas públicas. Ao trazer esse caminho mais de mostrar uma proposta de comercializar a droga mais ilegalmente – inclusive com o apoio do aparato policial – a obra acaba trazendo também um certo embate sobre o lado das periferias acabarem enfrentando isso de um jeito mais diferenciado. O personagem principal e seu amigo moram em favelas e acabam, em diversas ocasiões, vendendo muito mais a classe alta. Como isso seria na realidade caso fosse liberado? Esse é um debates que a série tenta trazer.

Para saber mais em como O Pico da Neblina irá e para quais caminhos vai levar, será preciso assistir a produção. Além do fato óbvio de saber mais sobre essa trama, é possível descobrir e refletir cada vez sobre essa pertinente discussão. Independente de lados, é bem interessante o fato da HBO investir em algo assim. Os períodos aumentam e melhoram a oportunidade de falar sobre os mais variados assuntos. Essa é uma das oportunidades.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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