O início do fim, por Móbile Drink

O início de um relacionamento possui várias fases distintas: a lua de mel, onde a distância não existe e a realidade é distorcida, pela necessidade de estar perto o tempo todo, o momento de pagar as contas do hotel e ir pra casa, onde o cotidiano começa a sugar a “vida plena a dois”, e aquele instante em que você finalmente cai no marasmo e ganha aquela “barriga de chopp” por preferir ficar em casa vendo tv e comendo bobagem do que ver a pessoa, e, mesmo quando vê, o cansaço é tanto que te impede de levantar do sofá. O que quero dizer é que, se você ainda não desistiu desse texto devido ao excesso de amargura, o estágio inicial de uma relação também pode ser o início do fim. Às vezes, parcelamos a conta ao invés de pagarmos tudo de uma vez, e vamos, de pouco em pouco, perdendo o que tínhamos.

No novo EP da banda carioca Móbile Drink, intitulado (A) Morfina, relacionamentos amorosos são vistos exatamente assim: de forma cíclica. Para os membros do conjunto, o fim e o início andam de mãos dadas, e, como características do trabalho estão as letras diretas, que, juntas, formam um conceito, como se os acordes mudassem, mas os versos de cada faixa fossem extensões de uma longa canção que encontra na linearidade lírica e na potência sonora dos riffs bem costurados e da sonoridade abrangente o suficiente para lotar um estádio (não é à toa que as influência deles já apontam para grandes bandas de rock n’ roll) sua principal arma.

A primeira faixa, Acabou, é exatamente o que parece: a porta começa a ser fechada, sem perspectiva de ser aberta novamente pela mesma pessoa que a fechou. O espelho foi quebrado, e agora os cacos foram juntados, mas quem disse que é fácil se restituir? Como primeira reação, o protagonista dessa longa canção de desencanto e reencanto, é bastante sincero, ainda que infantil: vai fazer (e já está fazendo) com sua ex tudo o que ela fez com ele. Se ela gritar, ele gritará mais alto; se destruir algum pertence de valor, será duas vezes mais destrutivo. Ainda que as canções formem um ciclo, as músicas, quando vistas separadamente, são bem fechadas em si mesmas, sem arestas. Mantêm uma estrutura tradicional de verso, ponte e refrão, com ideias bem consolidadas e finalizadas.

Em Amor É Coisa Louca, o eu-lírico admite ter havido uma saída. Mesmo que a porta que ele fechou tenha emperrado, ele achou um jeito de fechá-la por completo, talvez trocar a fechadura, e seguir na pista. Dessa vez, ele também faz o que a ex faz, mas não de maneira vingativa. Aproveita o estado de liberdade para curtir a noite como ela fez. É a maturidade ganhando forma, e a auto-imposição também.

Em Quente Sigilo, faixa com um ótimo jogo de palavras como o trecho Eu vago a noite pois a noite é vaga, tem sempre espaço pra me acolher, o conceito de liberdade também existe, mas não é mais uma imposição vingativa, e sim uma constatação. Os prazeres da madrugada, tornam-se, então, um quente sigilo, um contrato assinado a dois, mas cuja variável (as pessoas da relação) podem se transmutar.

Na sequência, a última faixa, Sei Não, o próprio instrumental já entrega: vem amor novo na área. A faixa destoa das outras e possui uma composição mais melosa e sentimental, tanto em questão de musicalidade quanto em lirismo. Um papo sobre o sorriso aqui, um papo sobre paz na alma acolá. E, enfim, a noção de que nosso herói pouco sabe: quanto mais ele pensa saber, mais conhece novas possibilidades e descobre que seu conhecimento anterior sobre essa nova pessoa que conheceu em pistas de dança, só de curtição, é, na verdade, alguém que veio para ficar.

No seu ritmo, o EP traça essa reconstrução de um espelho quebrado. O espelho que se torna uma relação quando os cacos se juntam novamente. A não ser que ele seja muito bem cuidado, todos sabem que o vidro pode se deteriorar novamente, e aí, meus amigos, é preciso ter resiliência e maturidade.

Comentários

Pedro Daher

Tenho tantas ideias quanto cabelo na minha cabeça, e dizem, e eu concordo com quem diz, que gosto de transportar o que se passa em minha mente inquieta para o papel físico ou para o texto reproduzido na tela do computador. Entre minhas principais paixões estão vários elementos que compõem a cultura pop, como a música e o cinema, em suas mais diversas formas, e a escrita que traduz em sentimento esses interesses.

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