O Protetor 2 e o heroísmo desesperado

Denzel Washington e Antoine Fuqua não se conhecem há pouco tempo. O diretor conseguiu atingir a marca dos cem milhões mundiais em bilheteria em todas as suas colaborações com o ator, e Washington ganhou o Óscar por sua performance em Dia de Treinamento. Agora a dupla volta a se encontrar em uma demorada sequência para o blockbuster de 2014, O Protetor. Encontramos Robert McCall como um motorista de aplicativo de carona enquanto continua a praticar trabalhos como justiceiro, mas essa “pacata” rotina é interrompida pelo assassinato de sua única amiga, desencadeando situações que o colocam de frente com questões morais dentro de sua nova vida.

Ainda que anti-climática quando analisada em conjunto ao decepcionante tom do filme, uma abertura fria dentro de um trem acaba sendo a tentativa mais efetiva da sequência do blockbuster de 2014 para uma elaboração de herói em volta do justiceiro com Proust na cabeceira. O essencial para um bom veículo de ação para Denzel Washington já está ali: um sóbrio monólogo com uma frase de efeito antecipando a pancadaria que culmina numa curta resolução de reencontro entre mãe e filha. A dosagem de elementos de ação, numa direção inicialmente apática de Fuqua, e da inevitável carga melodramática do filme é controlada de uma maneira bem singular aqui, mas esse controle acaba indo bruscamente pelos ares ao longo das desnecessárias duas horas de projeção.

A principal trama do filme nunca se mostra minimamente atraente — ainda que envolva temas que poderiam elevar o filme a algo maior do que seu antecessor se trabalhados com o mínimo de empenho. Toda a culminação do assassinato da única amiga do protetor, interpretada por uma eficiente Melissa Leo, só ganha força ali pelos minutos finais. O novo emprego do justiceiro como motorista  é o principal responsável para o tom não-inspirado e raramente carismático da sequência: ainda que Washington e sua aura paternal que ecoa em grandes momentos do filme tente salvar os momentos de interação entre McCall e seus passageiros, a insistência em levar o espectador ao encontro dos passageiros fora do carro faz o filme chegar a beirar o insuportável, mas, felizmente o maldito carro é posto em chamas logo na metade do filme.

Resultado de imagem para the equalizer 2 stills

Apenas a inutilidade de Pedro Pascal, a figura mais esquecível de todo o filme, em não conseguir incorporar minimamente a entidade corrupta que representava é o que ameaça atrapalhar a afiada resolução da sequência — surpreendentemente efetiva quando se leva em conta que o filme passou boa parte de sua duração se preparando para nada. O embate final entre o personagem de Pascal, Dave York, e o de Washington só acaba sendo salvo do inócuo pelas mãos milagrosas de Fuqua que toma as rédeas do que acontece na cidade-fantasma com independência e inventividade inéditas até então.

Vale ressaltar que o filme acerta em momentos soltos, como ao explorar a relação de Robert com um problemático estudante de artes e soltar breves comentários sobre a ineficiência da polícia americana e a posição de um jovem negro em relação à iminente tragicidade de seu futuro. Tentativas que, ainda que individualmente triunfantes, acabam tendo impacto reduzido no produto final devido a uma unidimensionalidade de intenções: no final, todos os pequenos acertos e as grandes escolhas erradas acabam sendo sobre a espalhafatosa confecção de um herói que não está nem perto de ser finalizada.

Os momentos finais, retomando as vidas tocadas por McCall, acabam estragando um redentor final para a sequência: parece que, ao utilizar seus o filme tenta se orgulhar de um feito nunca alcançado. O Protetor 2 acaba sendo mais um dos esquecíveis veículos de Washington, que entrega a mais inspirada de suas últimas performances ao voltar a interpretar o justiceiro e, infelizmente, acaba sendo o único saldo positivo de uma esquecível sequência.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *