Onda de Crimes e a morte como ferramenta narrativa

A morte sempre foi um fator extremamente importante nas mais diversas obras ao longo do tempo. Desde retretações sobre um viés mais dramatizado, até um debate mais aprofundado sobre existência, ela sempre esteve onipresente na arte. Talvez seja uma das formas de representação até mais realizadas. Em Onda de Crimes, a editora AVEC reuniu alguns nomes da literatura latino-americana para pensar isso em uma concepção mais tensa, no lado do suspense. A criminologia ganha fator chave aqui para o desenvolvimento de cada uma dessas tramas, pautadas bastante em um mundo real. Não há espaço para fantasias nesse livro, apenas para a verdade do mundo.

É intrigante como a elaboração dessa coletânea buscou referências diversas no lado dos autores e também nas formas de abordar o gênero. Se de um lado temos um pensamento mais sobre violência doméstica, do outro é sobre a violência urbana. Assim por diante. Essa diversidade traz uma interessante e necessária análise mais centrada no universo atual, na qual a criminalidade ganha destaque nas conversas. Isso se apresenta já diretamente no primeiro conto, Teia de Aranha, de Nicolás Ferraro. Sob um viés quase naturalista de sua narrativa, ele aborda a perspectiva de uma menina e a traumática relação com seu pai. Em um determinado momento, o fator da morte aparece parar quebrar essa continuidade e gerar ainda mais traumas na relação.

É uma primeira perspectiva que já busca um outro ângulo de análise. Como falado no início, a realidade é o ponto principal para o desenvolvimento dessas histórias, principalmente devido ao fato de paralelo com a vida. Rosa, de Paula Bajer, por exemplo, traz um retrato bem claro e pesado na violência doméstica. Entretanto, não olha em uma visão mais direta de quem sofre ou quem age, mas de uma vizinha. Seu olhar de empatia sobre a mulher agredida, a transforma em uma personagem necessitada de realizar essa justiça com as próprias mãos. Isso contorna a trama um olhar meio bizarro até, em uma forma de análise social. Bajer, inclusive, por ser mulher, consegue trabalhar todo esse pensamento de maneira ainda mais profunda, trazendo uma constante narração em diálogo com os leitores.

Outro destaque deve ser feito a O Estranho, de Cláudia Lemes. A autora usa conceitos do terror (principalmente na ideia do jogo de luz e sombras, além de não saber o que pode estar a sua espreita) para poder dimensionar uma trama sobre medo urbano. O simples ato de caminhar na rua pode ser fatal, pode ser um caso de morte. O protagonista entende a todo o tempo uma certa ideia de passado, de uma felicidade ao caminhar, agora perdida no mundo contemporâneo. Parece muito mais uma leitura feita nas sensações do que propriamente em um ínicio, meio e fim. Os sentimentos do público são entrelaçados nesse universo urbano. Esse, na qual causa medo em todos nós.

Mesmo com essas questões, nem tudo são flores. Algumas obras parecem um pouco deslocadas dentro do livro. Um exemplo mais claro é Os Pregadores, de Rodolfo Santullo. Santullo constrói um enredo até bastante chamativo, quase misturando um conceito meio místico, religioso, com uma base no inconsciente coletivo. Mas, seu desenvolvimento acaba por ser longo demais, travando um pouco toda sua base inicial. Em alguns instantes, poderia existir uma quebra de expectativa para sua finalização, todavia a fábula acaba ultrapassando um certo limiar racional. Poderia até funcionar bastante em uma outra série de contos. Porém, dentro da proposta aqui, soa um pouco perdido.

Onda de Crimes é uma interessante coletânea que busca uma análise mais aprofundada na narrativa sobre mortes. Sua base traz para a contemporaneidade esse medo constante de simplesmente morrer por nada. Não existe um lado sobrenatural em tudo. O simples fato de existir ao lado de outros humanos já gera uma perspectiva de terror urbano, quase onipresente nas apresentações do livro. Ao mesmo tempo de ser uma literatura de suspense, também deve ser pensada em uma sociologia da violência. A que nos cerca em todos os momentos, presente em todos os lugares. Se existem retratações sobre o estágio do mundo, essa obra está entre elas.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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