Os 50 anos do Festival de Woodstock

O ano de 1969 é talvez um dos mais marcantes – quiçá o mais – da história cultural dos Estados Unidos. Diversos acontecimentos trazem demonstram isso, no cinema, televisão, quadrinhos, entre outros. Não a toa, Quentin Tarantino quis fazer Era Uma Vez… Em Hollywood agora em 2019 tratando sobre o ano de 69 na cultura também. Se em 1968 o lado político foi mais forte, no ano seguinte não foi diferente, contudo expressado por uma nova maneira de pensar. Assim, entre os dias 15 e 18 do mês de agosto um festival mudaria os rumos da música até então, posteriormente sendo considerado o mais importante de todos os tempos. Durante essa data, há 50 anos atrás, ocorria o Woodstock.

Acontecendo em uma fazenda de 600 acres (pouco mais de 2 milhões de metros) de um fazendeiro chamado Max Yasgur, no estado de Nova York, esse evento marcou a primeira arte. Ele iria tomar lugar na própria cidade de Woodstock, todavia foi transferido pelo tamanho desse novo espaço. Os lados são diversos a serem explorados nesse sentido, mas é importante pensar em um contexto do período para ter um olhar mais aprofundado e direto.

Em 69, o rock dominava. No ano anterior, o Deep Purple havia começado com seus sucessos, os The Beatles estavam próximos ao fim, Janis Joplin dominava as paradas e Jimi Hendrix era um dos maiores sucessos do mundo com seus riffs. Isso sem falar em, por exemplo, o primeiro álbum do Black Sabbath em 1970 e o início da carreira de David Bowie. O topo das paradas musicais estavam concentrados nesse gênero, surgido até relativamente pouco tempo atrás. É bom lembrar que o blues, jazz e soul ainda tinham sua força na indústria – esses, os grandes “pais” e “mães” do rock.

Pois bem, o período ainda era marcado também por uma relação política muito forte. Com a guerra fria e diversos acontecimentos políticos em curso, como a segunda onda do feminismo e as primeiras militâncias LGBT, iniciou-se o surgimento da chamada contracultura, seus seguidores eram conhecidos como os hippies. Era a geração do “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.

Mas o que esse grupo buscava? Basicamente, um espírito maior de liberdade, com liberação de drogas e o chamado “amor livre”, além do fim da guerra do Vietnã, e um novo comportamento e valor social. Como não lembrar logo da música dos brasileiros dos Os Incríveis “Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones“, regravada posteriormente pelo grupo Engenheiros do Hawaii.

A organização e as confusões

Os empresários Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld observaram tudo isso como uma oportunidade. Se o rock e o blues fazem imenso sucesso com a audiência e existe todo um fenômeno nisso, por que não fazer um festival unindo as duas coisas? Unindo música e arte ao ar livre, com investimento de US$ 3,1 milhões (o que acabou gerando o prejuízo de “apenas” de US$ 1,5 milhões).

Começou todo um investimento mais pesado, esperando realmente um retorno financeiro para a viabilização do evento. O ingresso custava 18 dólares se comprado antecipadamente e 24 dólares na hora. 186 mil pessoas já haviam comprado antes, o que gerou uma certa tranquilidade por parte deles. A expectativa passou a ser por volta de 200 mil pessoas presentes. O problema foi que isso não aconteceu. O público chegou em uma quantidade avassaladora, derrubando as mais diversas grades e gerando – pelo menos no que se contabiliza – cerca de 500 mil presentes, com a maioria entrando gratuitamente.

Para se ter uma noção, não houve nenhum preparativo para conseguir gerar uma tranquilidade compatível com a quantidade de pessoas. A pequena cidade de Bethel, onde ocorreu a edição, entrou em estado de calamidade pública, tamanha a quantidade de veículos e pessoas. Ainda com a provável chuva esperada, as instalações do Woodstock não comportavam em nada todo mundo, gerando problemas de comida, higiene, além de saneamento e primeiros-socorros para todos os que estavam lá. 

Ainda há uma imagem, muito criada pelo documentário sobre o evento, lançado em 1970, que tudo ocorreu bem mais livre e tranquilo. Dentre as diversas questões ocorridas, estão a perda de revestimento de um cabo de eletricidade do principal (isso no meio da chuva); o calor infernal e a água caríssima, o que ocasionou diversas brigas; estupros frequentes e diversos casos de assédio; três mortes registradas, sendo duas por overdose; entre mais coisas.

“O festival foi declarado área de desastre pelo governo, mas isso foi ocultado por toda a mitologia criada ao longo dos anos”, contou o crítico de cultura Steve Hyden em entrevista ao The Washington Post. “Havia a ideia de que se você organizasse um festival na última hora, sem grande infraestrutura e com um ambiente meio caótico, o resultado seria um belo evento. Que seria um marco definitivo para uma geração, algo que as pessoas recordariam por anos”.

Os shows e o legado

Exatamente às 17h07 do dia 15 entraram no palco Richie Havens e sua banda, colocado de maneira meio inesperada como abertura. Sua performance foi adiantada pelo fato da banda Sweetwater ter sido parada pela polícia no caminho e o atraso de outros grupos na confusão instaurada na cidade. Seu show durou simplesmente 3 horas, colocando ponto de partida para a fuga da programação, com longas apresentações e quebra de horários.

Naquele primeiro dia de apresentações, ainda foram ao palco Swami Satchidananda, Sweetwater, Bert Sommer, Tim Hardin, Ravi Shankar, Melanie (substituindo a Incredible String Band na qual se recusou a tocar pela chuva), Arlo Guthrie e, fechando a noite, Joan Baez.

É preciso dizer que esse talvez tenha sido o dia menos marcante de todos. Não pelo fato das apresentações não terem sido boas ou algo do tipo, mas sim pelos nomes envolvidos. Nos dias seguintes, foram reunidos bandas e artistas marcantes da história do rock, na qual até os dias de hoje são rememorados quando é falado do Woodstock.

Isso já é iniciado no dia seguinte, em que foi iniciado por QuillCountry Joe McDonald – esse segundo aparecendo no último instante pelo seguinte não estar preparado. Santana veio logo depois, com apenas 20 anos de idade na época, e John Sebastian, que estava na verdade como público, foi chamado para o palco pelo atraso das bandas posteriores. Keef Hartley Band, The Incredible String Band, Canned Heat e Mountain, no que foi apenas terceira performance da história deles, continuaram animando os presentes. A sequência dali até o final foi totalmente estonteante. Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, Sly & The Family Stone, The Who e Jefferson Airplane fecharam o sábado, dia 16.

Desse dia, Joplin, The Who, Airplane e Santana estão entre as mais elogiadas performances de todo o evento. Quem sabe – e isso apenas os presentes poderão dizer – estavam entre realmente as melhores da história.

Um dos dias mais inesquecíveis da música foi o domingo (dia 17), que acabou se arrastando até a segunda. Isso se deve especialmente ao fato do grande fechamento do evento ter sido com Jimi Hendrix, mas já chegamos lá.

O dia começou com Joe Cocker e The Grease Band, mas tudo parou por um bom tempo ali, devido a um temporal sem fim ocorrido. Quando as coisas voltaram a normalidade, Country Joe and the Fish fez sua segunda performance no festival, Ten Years After, The Band, Johnny Wintere Blood, Sweat & Tears continuaram. O supergrupo de folk Crosby, Stills, Nash & Young deu sua voz nesse cenário, realizando uma parte em acústico e outra na guitarra elétrica. Paul Butterfield Blues Band e She-Na-Na praticamente finalizaram tudo.

Hendrix acabou tudo com uma apresentação já na manhã de segunda, para um público bem menor daquele que chegou para tudo. Estavam presentes cerca de 200.000 pessoas, acompanhando um dos maiores guitarristas de todos os tempos finalizar aquele estrondo.

O Woodstock foi o maior evento de toda a história da contracultura e talvez seja hoje o festival de música mais inesquecível de todos os tempos. Todas as suas questões internas geraram quase uma mística própria, relembrada a cada nova geração. Houveram algumas tentativas de realização de alguns eventos homônimos em 79, 89, 94, 99 e 2009. Nesse ano de 2019, ainda houve uma tentativa de fazer uma versão em comemoração aos 50 anos, mas acabou sendo um fracasso e nem saiu do papel.

Apesar de não ter sido de fato primoroso em quase nada, foi um marco para um período de grande enfoque mundial da música. É um dos eventos a ser lembrado por até mais 50 anos daqui para frente, como um início e até finalizador de um movimento. Os que ainda estão vivos daquele dia não devem esquecer as memórias. Memórias essas que foram deixadas no DNA da música eternamente por aqueles 4 dias.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *