Resenha – O Golpe da Barata (HQ)

Como retratar os próprios traumas? Talvez seja algo extremamente difícil de responder dentro do mundo da arte, mas tão presente quanto. Essa é uma construção importante de compreender dentro da personalidade da autora argentina Gato Fernández, ao tentar colocar para fora todas suas questões internas. É complexo o processo, já que exige uma busca por discutir consigo mesmo e também em tentar elucidar problemas que pareciam não resolvidos. Em O Golpe da Barata, a artista parece não ter medo de realmente expressar tudo isso guardado internamente. E, com isso, trazemos uma história complexa e pesada.

Dentro dessa realidade, conhecemos a pequena menina Lucia. Ela vive e adora o mundo que faz com seu irmão nas diversas brincadeiras e conversas. Além disso, tem uma forte e importante relação com a mãe, a qual conta histórias antes de dormir, mas parece meio distante em muitos momentos. No quarto, o que ela e o irmão sempre ouvem são a briga dessa figura materna com o pai, Alberto. Ele, mais do que abusivo perante a mulher, também abusa sexualmente da filha pequena. Assim, as baratas trazem e representam todo o nojo que ela sente com essas situações que passa.

A autoficção é realmente o elemento central da narrativo que O Golpe da Barata traz. Longe de ser um quadrinho que vai buscar elucidar essa problemática onipresente na vida da personagem, a obra está mais atrás mesmo de uma demonstração intrinseca desse mundo infantil com um problema nas costas que será levado pela vida inteira. Aliás, é bem interessante a forma que Gato constrói os momentos da violência, já que eles são trabalhados de um lado psicológico de Lucia, sobre aceitação de si mesma e também de um entendimento do próprio corpo. A autora busca menos trazer a brutalidade e observa mais em um lado das consequências. Tanto que o momento que a pedofilia é falada diretamente, é em uma conversa da garota com uma amiga de escola.

Esse mundo colocado pela autora é menos direto justamente para conseguir construir os pequenos elementos de esperança que a própria personagem vai trazer. Assim, a relação dela com a figura de Deus, por exemplo, é algo que parece ser em uma perspectiva de buscar alguma coisa de salvação além do que se está presente no mundo físico. Da mesma forma, a imaginação é sempre algo relevante para uma fuga desse mundo e também a batalha de tentar sobreviver com esse peso levado nas costas.

Dessa maneira, O Golpe da Barata está longe de ser uma HQ que vai atrás de alguma resposta ou até mesmo de ser combativa com tudo que aconteceu pela protagonista, o alter-ego da escritora e desenhista. É um trabalho que vai realmente atrás da compreensão de mundo desses personagens, como se eles, de alguma forma, não pudessem existir em algo verdadeiro, mas que estão presentes mesmo assim. Desse jeito, é quase como se um looping de violências e sofrimento fosse colocado na nossa frente. Não restando nada além de enfrentar tudo isso por uma pequena garota.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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