Search Party e o mistério de ser jovem

“Ser jovem” nunca foi fácil.

Nunca foi e nunca será. A transição entre o fim da adolescência e o início da vida adulta sempre foi pauta para diversos filmes e seriados. As abordagens podem variar entre as mais cômicas e as mais dramáticas. Os exemplos também são diversos: Friends, Girls, Please Like Me… 

Dentre a safra mais recente, está Seach Party, da TBS.Comédia de humor negro criada por Sarah-Violet Bliss e Michael Showalter (diretor de The Big Sick, indicado ao Oscar de melhor roteiro original), o seriado aborda a vida de quatro egocêntricos nova-iorquinos, que saíram há pouco tempo da faculdade. Somos apresentados à Dory (Alia Shawkat), que está perdida profissionalmente, seu namorado contido Drew (John Reynolds), o extravagante e exibido Elliot (John Early) e a atriz Portia (Meredith Hagner). Em contrapartida ao grupo de amigos, há o ex-namorado de Dory, Julian (Brandon Michael Hall), um cara mais pé no chão que vive em conflito com o quarteto devido ao comportamento problemático que eles demonstram.

Tudo muda na vida Dory quando ela percebe que Chantal Winterbottom, uma moça que ela conheceu na universidade, está desaparecida. Ela decide que irá encontrar Chantal de qualquer maneira, trazendo seus amigos relutantemente na investigação. Enquanto investigam o mistério de Chantal, os quatro tentam lidar com a caótica vida que vivem.

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Se a sinopse não parece algo muito original, os desdobramentos que o roteiro apresenta e o desenvolvimento dos personagens faz questão de acrescentar à história algo essencial para que ela funcione: personalidade. O público geralmente gosta de se identificar com os dilemas que os personagens enfrentam. Seus pesares e problemas, traços de identidade em comum. Em Search Party, é difícil não se sentir ao ver que Dory e seus amigos apresentam comportamentos que podem ser iguais aos nossos. São jovens com comportamentos destrutivos, relacionamentos instáveis e extremamente egocêntricos. Embora isso seja feito de maneira exagerada, com toques de surrealismo (outra característica do humor que a série apresenta), é a ironia perfeita que faz o público questionar a si mesmo. O que esses personagens estão fazendo, em diversos momentos, é absurdo e repreensível, mas não é difícil se ver muito distante do que está sendo apresentado ali.

A própria resolução do conflito principal da primeira temporada (o desaparecimento de Chantal) é um exemplo perfeito da geração que Search Party quer retratar. Veja bem, apesar de ser feito de maneira satírica, não é feito com tom de condescendência ou uma crítica cansada à geração jovem, mas apenas um reflexo. Apesar de Dory e seus amigos estarem focados em achar Chantal, o maior mistério que eles parecem nunca saber desvendar é encontrarem a si mesmos. Em determinado momento, há o seguine diálogo:

“De quem você está fugindo?”

“De mim mesma”.

Os 10 episódios da temporada são recheados de bons momentos de mistério e investigação, com uma excelente construção de trama, para desconstruir exatamente tudo o que foi proposto até o momento quando o mistério é resolvido.

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O roteiro também é beneficiado de maneira brilhante pelo elenco. Alia Shawkat, geralmente presente em comédias de nicho, não decepciona ao construir sua confusa Dory. Dory é a personagem que ancora toda a trama e todos os personagens, então seria fácil para que a personagem se perdesse em meio aos diversos fios que vão e voltam durante a trama. Mas Shawkat, através de olhares e caretas, pode te fazer rir de nervoso ou chorar de desespero sem dizer uma palavra. Apesar disso, Meredith Hagner rouba a cena no lugar de Portia. No início, Portia parece uma garota frívola e sem carisma nenhum. No entanto, a personagem é bem desenvolvida e aprofundada sem perder os traços que a marcam. É de longe a performance mais carismática da série e há 90% de chance de ser sua personagem favorita no fim. John Early apresenta um timing cômico excelente para Elliot, trazendo os absurdos do personagem sem parecer inverossímil – ou pelo menos fica na linha de chegada.  Há também participações de atores como Parker Posey, Rosie Perez, Christine Taylor e Ron Livingston.

Outro ponto que vale destacar é a direção e a fotografia. Os episódios são, em sua maioria, dirigidos pelos criadores da série. Ambos os diretores quase sempre apostam em enquadramentos e planos amplos, acrescentando ainda mais o sentimento de solidão e confusão que os personagens quase sempre se encontram. Além disso, a fotografia aposta em tons sóbrios e secos, assim como figurino que a galera usa: um estilo meio vintage, meio atual, de tonalidades contrastantes.

A primeira temporada de Sarch Party foi exibida no final de 2016, chegando ao Brasil no início de 2017 através do canal pago TBS. É um humor estranho e seco, que pode te deixar desconfortável, mas é isso que faz a série ser tão bacana e é por isso que vale tanto a pena dar uma chance.

 

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