Um Lugar Silencioso: entre a tensão e o medo

A capacidade de conduzir a audiência em uma sala de cinema é algo ímpar e democrático ao mesmo tempo. Embora não seja um efeito fácil de se alcançar, não foram só mestres como Steven Spielberg e Stanley Kubrick que tiveram sucesso nessa empreitada: Matt Reeves, em “Cloverfield: Monstro” (2008), Oren Peli em “Atividade Paranormal” (2007) e Robert Eggers em sua estreia com “A Bruxa” (2016), por exemplo, trouxeram o público para dentro da tela, engolindo-o completamente e só deixando que eles escapassem ao subir dos créditos. John Krasinski abandona qualquer resquício que ainda guardava das suas épocas de “The Office” para entrar neste seleto grupo, não apenas para tragar sua audiência como diretor e protagonista de “Um Lugar Silencioso”, mas para fazer isso com uma qualidade exemplar.

O longa nos mostra a história de uma família que está presa em um mundo impossível de se viver: criaturas assassinas desmembram violentamente qualquer pessoa que faça um som sequer, obrigando a todos a viver em absoluto silêncio. É através da linguagem de sinais e com luzes de sinalização que Lee, Evelyn, Marcus, Regan e Beau precisam se comunicar – inclusive esses nomes só aparecem nos créditos. A vida deles, dentro do horror, acomoda-se, até que um dia as coisas não saem exatamente como o planejado.

É com esta premissa que o filme engole sua audiência. Com a sensação de ameaça constante, não há tempo para se distrair, e mesmo os excelentes momentos de construção dramática, nos quais nos aprofundamos nos personagens e passamos a nos importar com eles, carregam uma tensão embutida. Ao contrário de grande parte dos filmes de terror atuais, nada em “Um Lugar Silencioso” é gratuito, e o silêncio perene faz com que o público se sinta sempre prestes a tomar um susto – o que de fato acontece em certos momentos.

Desta forma, ele se apresenta mais como um suspense do que como um terror. Embora haja elementos paranormais naquele meio, independentemente de suas origens, o filme não é tão assustador quanto é tenso, mantendo a audiência na ponta da cadeira e com mesmo receio de respirar alto durante a projeção. O clima de silêncio impenetrável não só traz o público para dentro do filme, como traz essa obra para o próprio cinema: as pessoas compreendem, de maneira instintiva, que fazer barulho é perigoso demais.

“Instinto”, inclusive, é uma palavra basilar para a compreensão do filme. Desde a ausência quase total de diálogos falados até a inserção do público na trama sem explicações prévias, “Um Lugar Silencioso” se apoia na compreensão de que a linguagem não-verbal é a mãe de todas as outras. É pelos olhares que John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds e Noah Jupe transmitem as emoções dos seus personagens com muita competência, com destaque para a última e sua capacidade de demonstrar horror de maneira intensa e sem exageros.

A direção segue esta mesma linha, levando os elementos narrativos ao limite de seu agravamento, mas sem ultrapassá-los. Quando o uso de uma lâmpada, um prego ou uma lanterna chegam perigosamente perto da superexposição ou mesmo da previsibilidade, o diretor demonstra reconhecer isso e respeitar essas linhas invisíveis, permanecendo dentro dela. Embora algumas escolhas ainda o coloquem dentro do esperado de um filme do gênero, são poucas aquelas que diminuem o sucesso de sua empreitada.

Um imenso sucesso: é assim que “Um Lugar Silencioso” pode ser resumido. Um filme de suspense realmente tenso, com sustos que nunca soam gratuitos e com atuações e conduções de excelência. A experiência imersiva pode ser diminuída caso a sala de cinema não respeite a regra principal que separa a morte da vida dentro do universo do longa, mas nada que respeitosos “shh”, um clássico lanterninha não resolvam e um monstro dilacerador. Seja como for, quando assistir, cuide de sua integridade física. Não faça som algum.

 

Texto escrito por Erik Avilez. Ele é editor-chefe do PontoJão, host do PontoCast, colunista e crítico do Cinema com Rapadura e dançarino de hula naturista nas horas vagas.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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