Misturando escrita, fotografias e ilustração, O Inferno É Aqui conta o diário de um psicopata

Em um período de complexidade dentro do mercado editorial brasileiro, a busca por inovações está a solta. Desde produções únicas e exclusivas (como o feito pela editora Aleph com 2001 – Uma Odisseia no Espaço), até os acabamentos de luxo da editora Pipoca e Nanquim. Pensando nisso, o autor, montador, diretor e diretor artísticos de pós-produção André Shuck resolveu montar seu livro de uma maneira um tanto quanto diferente. O Inferno É Aqui (pode ser comprado por aqui) reúne diversos estilos e tipos de arte, afim de contar o diário de um psicopata junto de sua esposa.

“Eu sou escritor de uma literatura padrão mesmo e quis fazer um livro que fosse diferente, que misturasse mídias”, conta Schuck em entrevista ao Senta Aí durante a XIX Bienal Internacional do Livro, evento na qual o livro foi lançado. “Na primeira versão dele eu escrevi tudo a mão, já que era um diário e imaginei que faria mais sentido. Ai eu pensei ‘poxa, poderia juntar ilustrações aqui pra ficar interessante e ele rabiscasse’. Com isso, também pensei, que poderia colocar algumas fotografias juntas para colocar tudo junto, tratando algo no livro em conjunto com elas. Aí que tudo começou a se forma”.

A capa do livro.

Dentro da obra, André não poupa em nada uma construção de violência. Ao colocar tudo em primeira pessoa e abraçando de vez as misturas midiáticas – como citado pelo mesmo -, há espaço para colocações deveras gráficas aqui. Os desejos do psicopata protagonista vão sempre para extremidades, buscando um alívio todo em cima dessas violências. A questão das letras com diversas cores, como recortadas de um jornal, ainda colaboram com um lado meio confuso e até esquisito da literatura aqui em questão.

Dentro disso, a forma na qual ele apresenta sua parceria romântica, V, é ainda em uma busca de um matar o outro. Dois psicopatas se encontrando em uma sociedade no qual não os entedem. Por isso, existe um destaque bem profundo em torno do relacionamento dos dois, visto pelo personagem principal como seu maior ponto de fuga. Essas pequenas construções ainda conseguem ser claramente expressas pelas ilustrações de Suzana Saito. Ela, em uma mudança de traços do agressivo para o lado mais calmo, demonstra em pequenas colocações ao longo da narrativa toda as emoções dele.

“Essa influência de fã [de cinema] ajudou bastante para pensar que eu queria fazer algo com imagem. O meu lado como diretor de cinema, diretor de publicidade e editor, me ajudou muito mais a como fazer. A parte visual que influenciou muito foram filmes, livros, histórias em quadrinhos mesmo”, continua Shuck. “Lendo o livro você percebe, e não foi proposital, uma influência muito grande do Rob Zombie, do Rejeitados Pelo Diabo, 31, 3 From Hell. Ele tem uma linguagem muito própria e isso tudo ajudou bastante a me fazer pensar mais sobre”.

Ao buscar esse ponto de vista narrativo do assassino, a trama de André não traz um julgamento moral. Se, para alguns, isso pode ser um problema, para outros pode ser uma virtude ao simplesmente colocar de frente essas atitudes por parte do mesmo. Mesmo o autor tendo falado sobre sua influência de Zombie, ainda é possível trazer muito de uma linguagem trash. Esse fato traz dele uma alusão não apenas cinematográfica ao, por exemplo, filmes de slasher dos anos 80. Contudo, há uma certa comparação dessa violência também das HQ’s, como obras pulp, Juiz Dredd ou até tramas do Justiceiro e Preacher.

“É tudo um amalgama de um monte de coisas que eu gosto, de um monte de estilos que eu gosto. Foi tudo baseado em vários lados e vários caminhos mesmo. Acho que isso que fundamentou mais o livro”, diz André. “Uma influência específica dos quadrinhos não teve, mas é impossível falar que não houve isso. Tudo que eu faço tem algo dos quadrinhos porque é algo na qual sempre li e sempre me fundei. Essa junção de coisas talvez seja a melhor maneira de definir o livro mesmo”.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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