Crítica – Abigail e a Cidade Proibida

Nos minutos iniciais de Abigail e a Cidade Proibida, a protagonista protesta com sua mãe sobre a injustiça da família delas ser estigmatizada por que seu pai (Eddie Marsan), sequestrado há mais de 10 anos, possuía uma condição mal vista pela sociedade. Pode até parecer uma declaração forte, de uma jovem cansada das condições de seu mundo. Poderia, se houvesse alguma preocupação em, de fato, retratar essa situação em algum momento do longa, mas que não passa de ser uma declaração isolada. De um filme, na qual acaba por possuir seu ‘destaque’ nesse isoluaento.

Este é o principal problema dessa produção russa, dirigida e roteirizada por Aleksandr Boguslavkskiy. O longa apresenta breves vislumbres de temas interessantes de serem discutidos, porém nunca cresce além de uma premissa básica e genérica, que conta a história de Abigail (Tinatin Dalakishvil), jovem que vive em uma cidade completamente murada dominada por um regime autoritário. Esses mesmos autoritários, justificam sua truculência e o isolamento para evitar que uma doença misteriosa, extremamente contagiosa e letal, se espalhe. 

Os portadores da doença são identificados através de um brilho nos olhos, e são imediatamente levados para serem mortos. O pai de Abigail, um grande cientista, identificado como doente, foi levado pelas autoridades. Após descobrir a verdade por trás da doença, Abigail precisará lutar para libertar a cidade, enquanto tenta encontrar seu pai.

Além da interessante mistura entre a estética steampunk e elementos mágicos, Abigail e a Cidade Proibida tem pouco que o faça se destacar de outros filmes infanto juvenis similares. A todo momento, a influência de longas como A Bússola de Ouro, Harry Potter e Jogos Vorazes se fazem sentir, enquanto o que passa na tela é agressivamente genérico. Nada na produção possui identidade própria, a cidade nem mesmo tem nome, termos como “o dispositivo”,“o dom” são abundantes.

A ideia de um mundo murado para evitar a entrada de indesejados é pertinente, e poderia ser utilizada para aprofundar a mitologia, mas nunca é devidamente explorado. O roteiro não procura conferir camadas aquele universo. Essa pobreza afeta o filme como um todo, que não consegue nem ao menos criar um senso de encantamento com a “descoberta”(algo que é revelado para audiência já nos créditos iniciais) da magia por Abigail, na qual tem toda sua concepção de mundo alterada e… age como se nada de mais houvesse acontecido.

A pobreza se revela também na técnica, e quase nenhuma cena funciona como deveria. Em momentos que deveriam ser tensos – como minutos antes de uma emboscada – nenhum elemento é utilizado para sentirmos a tensão e a paranóia da situação. No lugar, temos planos abertos de dezenas de personagens andando tranquilos por uma rua, até que alguém grita: “é uma emboscada!”, e dispara a ação, que se utiliza de planos fechados e rápidos demais para que se entenda o que ocorre.

Abigail e a Cidade Proibida possui elementos para ser algo próprio, já que o steampunk é algo pouco utilizado no cinema, e sua história lida com temas importantes. Ao invés disso, o filme parece que foi construído em cima da vaga memória que os autores tinham de obras similares, e se contentaram em ter a aparência de um. Sem mitologia distinta e personagens desinteressantes, a obra é uma experiência pobre e genérica, sendo facilmente esquecido.

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