A editora do Youtube

É claro que os criadores do canal Pipoca e Nanquim não imaginariam o futuro acontecimento maior de seus negócios há 9 anos atrás: a criação de uma editora. Mesmo passando de lugar para lugar, até se estabelecerem como uma fonte intensa para os fãs da de quadrinhos no Youtube, Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes admitem o atrelamento desse sucesso profissional com o trabalho.

“Persistência, seriedade, resiliência, honestidade, trabalho duro… Estamos nisso há muito tempo e nada veio da noite para o dia. Passamos anos trabalhado sem ganhar um centavo, apenas acreditando que um dia a recompensa viria”, disseram em entrevista ao Senta Aí.

Apesar das diferentes carreiras inicialmente escolhidas, todos os três se encontraram dentro do amor pela nona arte, na qual gerou o emprego como editores de HQ’s na Panini Comics, com os grandes títulos de Marvel, DC e Mangás. Essa anterior experiência dentro do próprio mercado, abriu os olhos e conversas para a futura criação de uma editora.

“Sem isso teríamos sido apenas três aventureiros que, sem experiência prévia, provavelmente teriam quebrado a cara ao encarar essa empreitada. Já vimos acontecer com outras pessoas e sabemos que o risco é grande”, revelam. “Pode parecer fácil editar quadrinhos, mas é um trabalho bastante complexo e, até hoje, aprendemos bastante a cada novo projeto”.

O início desse projeto – na qual já revelaram em vídeos que começou em conversas anteriormente – se deu, propriamente dito, em 2017. Nesse ano, diversos lançamentos já angariaram listas de melhores do ano e até de livros mais vendidos pela Revista Veja. Dentre eles estão Moby Dick, do autor francês Chabouté, e a primeira edição dos contos de Conan – O Bárbaro, do estadunidense Robert E. Howard, um ‘pai’ da fantasia medieval. Esse último, inclusive, foi o primeiro lançamento literário deles.

Todavia, tudo iniciou em uma aposta meio arriscada: um volume único de Espadas e Bruxas. Realizada pelo autor espanhol Esteban Maroto, a publicação não rondava em terras nacionais havia muito tempo, além de nunca ter sido divulgada de forma complementar. Algo que poderia tornar o projeto com problemas logo de início era, também, o preço de capa de R$120,00. Apesar de se tratar de um valor justificado, segundo os editores, o problema de poder de compra do público nacional e a crise se alastrando seriam motivos mais que razoáveis para desastre. O “problema”, na verdade, acabou sendo justamente ao contrário.

“Nós trabalhávamos como editores para a Panini Brasil há muitos anos e nos especializamos no assunto. O canal estava crescendo e conseguimos uma boa parceria com a Amazon; parecia o momento propício para dar esse salto. O que não prevíamos era que nossa operação tomaria um vulto tão grande a ponto de nos demitirmos da Panini para ficar apenas com o Pipoca”, salientam.

Desde então, os lançamentos acabaram sendo os mais diversificados, passando por uma obra de Singapura vencedora do Prêmio Eisner (A Arte de Charlie Chan Hock Chye), um projeto de filme do aclamado Jim Henson (Conto de Areia) e até uma adaptação para quadrinhos da ópera de Richard Wagner (O Anel do Nibelungo). Mesmo com esses inovadores materiais no país, a curadoria da editora não um padrão do mercado brasileiro.

“Não existe um “como”. Cada projeto veio de uma fonte diferente. Às vezes era algo que já estava no radar de algum de nós, em outros casos, uma dica ou sugestão de um terceiro. Também já fomos procurados por editoras de fora, que ofereceram determinado título”. E ainda completam: “A única questão da qual não abrimos mão é que a HQ precisa ser aprovada pelos três. Respeitamos muito a opinião uns dos outros e sabemos que, se os três aprovarem, teremos um quadrinho vencedor nas mãos”.

Os três integrantes da editora em um recente vídeo.

As novas tecnologias e a editora

O mercado editorial levou certo tempo para entender a influência das novas tecnologias e novos canais de comunicação dentro do processo de formação de público. Não é à toa que o período vivido atualmente se torna marcado por diversas falências ou problemas na publicação das mais diversas obras. Essa tentativa da comunicação com a audiência poderia ter sido frequente, porém a transição para as novas mídias foi um pouco traumática.

A Pipoca e a Nanquim surgiu da internet e é a partir dela que os criadores buscam a proximidade de contato com o público, além de aonde acharam o lugar principal de comércio: a Amazon. Com essa loja de revenda virtual, foi o espaço ideal para um investimento conjunto na qual traria um futuro sucesso. A parceria comercial, iniciada no projeto de associados do site, continuou de forma totalmente natural, como contam em alguns vídeos.

Os três ainda se vangloriam da marca de terem sido a primeira editora surgida desse projeto de colaboração da Amazon no mundo. É uma marca e tanto para um projeto começado em uma projeção muito mais lenta. Mas, por que a escolha por essa maneira de venda?

“Porque a Amazon é o que possibilita tudo funcionar. Em tempos em que vemos o colapso das livrarias e a crise que isso gerou, a Amazon continua um sustentáculo que, a despeito das críticas que sofre, é honesta, paga em dia e oferece um serviço de primeira linha tanto para o consumidor quanto para a editora”.

Para o livro, essa transformação dos produtores de conteúdo da internet em escritores e fundadores de empresas – como é o caso aqui – é natural, um sinal dos tempos atuais. Isso totalmente atrelado às novas tecnologias.

“Para nós o diálogo entre as mídias é perfeitamente natural. No passado, víamos atores de cinema, teatro e televisão produzindo livros, assim como gente da área do jornalismo. É normal que isso tenha se estendido hoje para os produtores de conteúdo do Youtube e outras plataformas”, finalizam.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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