A polêmica revisitação racial nas obras de Machado de Assis e Monteiro Lobato

Por serem frutos de seu tempo, não é incomum que a revisitação à obras escritas em momentos pregressos seja desencadeadora de polêmicas. A alta velocidade na qual valores e estigmas sociais alteram-se acaba exercendo um efeito direto na maneira em que o público recebe uma produção artística. É comum que detectemos a normatização de machismo, homofobia ou outras mazelas sociais ao rever um filme ou ouvir uma música antiga, algo na qual afeta diretamente a recepção e avaliação das obras. Numa escala recente, é possível citar algumas problematizações relacionadas a produções de Monteiro Lobato e Machado de Assis, relacionadas a questões polêmicas de suas produções em vida.

Em 2010, o livro Caçadas de Pedrinho, publicado por Monteiro Lobato em 1933, em que foca nas aventuras dos icônicos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, virou alvo de uma ação movida pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA). Segundo o instituto, no livro há trechos com teor racista, referentes ao tratamento dado a Tia Nastácia, como em trechos em que é chamada de “macaca de carvão” ou quando dito ter “carne preta”. 

IARA também moveu uma ação na Controladoria Geral da União contra Negrinha, lançado em 1920 pelo mesmo autor, no qual, em 2009, foi adquirida pelo Programa Nacional da Biblioteca da Escola (PNBE), do MEC. Em ambos os casos os livros não foram retirados do programa de distribuição à bibliotecas, mas foi indicado que suas novas edições viessem acompanhadas uma espécie de nota técnica, na qual os professores tivessem artifícios para explicar o contexto histórico das histórias, sem que fossem cometidos anacronismos. 

Capas dos livros alvo das polêmicas

Ainda havendo uma defesa de certos movimentos e até grupos, alegando que Lobato apenas apresenta ideia comuns ao seu tempo, é preciso ressaltar que o autor mantinha fortes relações com a Sociedade Eugênica de São Paulo, além de haver fragmentos de cartas onde elogiava a Ku Klux Klan, movimento defensor da supremacia branca. 

Já com Machado de Assis, a revisitação de suas obras se problematiza em sua figura, a de um homem negro clareado historicamente. Ainda que sempre tenha sido representado como branco, há diversas evidências bem diretas e clara do escritor ser – na verdade – um homem negro. Ele, no entanto, acabou sempre sendo embranquecido pela elite intelectual do período. Tal debate ganhou força após a iniciativa da campanha Machado de Assis Real, realizada pela Faculdade Zumbi dos Palmares, de divulgar fotos de como Machado seria realmente.

No site da campanha, os dizeres “Sua foto oficial, reproduzida até hoje, muda a sua cor da pele, distorce seus traços e rejeita sua verdadeira origem” estampam a iniciativa, que busca, segundo eles, impedir que o racismo seja perpetuado na literatura.

A foto “oficial” do autor e a editada pela campanha Machado de Assis Real

E na XIX Edição da Bienal Internacional do Livro Rio, essa foi a pauta da mesa Machado de Assis e a Literatura Negra, na qual debateram o resgate da negritude do autor. João Almeida Junior, um dos convidados e escritor do romance O Homem que Odiava Machado de Assis, contou sobre como foi ser o primeiro a colocar a imagem negra de Machado em uma publicação editorial no país. “A capa do livro já estava na editora. Mas a coluna do Ancelmo Góes divulgou a foto de Machado real. Como branco tive medo por não ter local de fala, mas achei necessário, felizmente conseguimos interromper o processo e montar uma nova capa”.

Para a escritora Conceição Evaristo, também presente durante o evento, não se trata apenas de uma reivindicação pela negritude do autor, mas sim de seu papel como detentor de conhecimento. “Se trata de acabar com a ideia de que apenas o branco produz conhecimento intelectual. Duvidar da capacidade intelectual de um sujeito negro, e duvidar da humanidade dele”. E afirma que nesses pequenos passos será possível a criação de uma identidade negra na literatura brasileira.

Apesar da questão aparentar ser bem aceita no meio literário, há quem tenha dúvidas sobre porque a elite branca da época, abertamente racista, aceitou um homem como Machado. O mestre em literatura pela PUC-Rio, José Almeida Junior justifica pela forma do escritor criar suas obras. “Machado é negro, brancos eram os leitores de Machado. Ele escrevia para os brancos, essa é a questão”, afirma. “Ele consegue criar uma crítica aos brancos, sem precisar criar um herói negro. Ele entra na sociedade branca para jogar os podres de toda aquela elite pra fora, mas sem que eles percebam”.

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