Assunto de Família reconstrói os valores familiares

O início de Assunto de Família remete diretamente ao clássico O Batedor de Carteiras, de Robert Bresson. A estratégia e técnica em cima de um simples furto, gera toda uma sensação de necessidade desse ato, tornando-o grandioso. Se no longa de Bresson, o objetivo era falar da história de um homem com esse problema, aqui o conceito extrapola para um lado familiar. Essa dinâmica é exposta de maneira clara quando pai e filho se ajudam ao roubar itens de comida. Os dois celebram o sucesso no retornar ao lar, porém sem antes perceber o abandono de uma menina em uma das casas próximas a sua residência. Sendo assim, vemos o lado mais bondoso da dupla. E a partir da ajuda dessa simples garota é que a obra abre espaço para diálogos muito maiores.

Durante todo o primeiro ato somos colocados diante de uma trama visivelmente familiar. A dinâmica, não apenas dos dois citados acima, mas também da mãe, da avó e de uma outra mulher é apresentada em um aceno a cotidianidade. Todavia, o diretor Hirokazu Koreeda deixa o público se acostumar a todas essas relações primárias, remetendo as vivências pessoais de cada um, para desconstruir tudo a partir desse instante. A ajuda com a menina abandonada, passa a ser um sequestro, quando começa uma busca pela mesma, assim como pequenas situações – como a do garoto não conseguir chamar a figura paterna de pai – geram um estranhamento e uma quebra de toda essa situação. O crime, associado à dupla na sequência inicial, passa a fazer parte de um gigantesco entorno.

Porém, o mais intrigante de tudo, é o fato de Koreeda apenas abrir isso e não deixar algo realmente moralista aflorar. Após abrir esse campo, sua discussão vai muito mais em torno da ideia de um ceio familiar, como ele poderia construído e o que é realmente família para as pessoas. As afeições pessoais são intensificadas nos pequenos gestos e momentos. Um desses instantes mais claros é a situação de abandono da menina, sendo tratada de forma altamente amorosa, tendo a oportunidade de receber um abraço e ser alguém. Aliás, a dupla infantil é a grande situada para sofrer por não estarem em seu “habitat natural”, sendo possível dizer isso. Entretanto, o carinho apresentado a todo segundo gera uma afeição imensa, se traduzindo na catarse emocional durante a cena da praia.

Toda essa temática abordada acaba se diluindo de forma progressiva, trazendo a tona esses problemas criminais. Essa certa falta de um balanço narrativo gera momentos um tanto quanto perdidos, podendo se contradizer a cada nova ocasião apresentada. A montagem, do próprio Hirozaku, perde um certo ritmo primordial ao retratar as relações de forma mais crua, trazendo pontos como o apreço dos pais maior por algum filho. Ao início do terceiro ato, essa dinâmica se torna secundária, inclusive sendo abordada de maneira pouco otimizada nas sequências finais. Tudo isso acaba se diluindo logo após a morte, sendo literalmente um estopim para o estouro dos afetos.

Apesar desse lado do crime estar presente, o cineasta coreano ainda busca trazer um quase tratado político da pobreza no Japão. O trio de trabalhadores da família todos estão em profissões de menor aporte – trabalhadores de obras, de lavanderia e de um clube de strip. É quase que uma dimensão contrária a conhecida mundialmente pelo Japão, onde a tecnologia é sempre presente e os espaços são totalmente aglomerados. Aqui, vemos uma área quase feudal, com presença de construções antigas e casas de madeira, trazendo referências aos elementos apresentados por Yasujiro Ozu em sua fimografia. Todavia, em vez da burguesia, vemos uma classe pobre em uma quase desconstrução pessoal, trazendo fragmentos políticos crassos da atualidade oriental.

Assunto de Família é um filme muito mais interessado em um debate aprofundado sobre o conceito familiar e político, do que em uma construção narrativa sobre criminalidade. Se a família completa comendo no começo remete a algum tipo de experiência pessoal, essas podem possuir um outro lado pouco conhecido, como se fosse um lado obscuro de um mesmo acontecimento. Afinal, famílias nunca são sinônimo de perfeição, mas sim um lado bem mais contrário a isso. E se é possível eleger uma temática principal ao longa aqui em debate, talvez a desconstrução do núcleo familiar conhecido por todos seja o mais relevante deles.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *