Crítica – A Fera

Filmes envolvendo monstros gigantes ou animais gigantes costumam sempre ficar em um meio termo. Alguns tentam caminhar pela veia cômica do absurdo da situação, já outros acabam explorando o lado mais dramático e de suspense das histórias – algo que, em grande parte dos casos, não funciona. É complicado definir a melhor maneira de produzir uma trama do tipo, já que é necessário trazer elementos de conexão com os personagens, ao mesmo tempo que é preciso transformar a ameaça em real, colocando a grande brincadeira que a situação acaba sendo. Em A Fera talvez tenhamos um dos exemplos mais bem trabalhados de todos esses elementos em conjunto.

Isso decorre da história de Nate Samuels (Idris Elba), um médico renomado, que resolve viajar para a África com suas duas filhas, Meredith (Iyana Halley) e Norah (Leah Jeffries). Por lá, ele encontra o melhor amigo, Martin (Sharlto Copley). A viagem tem um motivo bem específico: tentar espairecer um pouco após a morte da mãe das garotas e ex-esposa de Nate. Assim, eles fazem um passeio por uma parte que não é visitada por turistas. O problema começa quando são atacados e perseguidos por um leão, que teve todos dizimados por caçadores ilegais. Ele, então, está disposto a atacar os humanos que ver pelo caminho. Assim, a luta pela sobrevivência começa.

 estabelece alguns parâmetros bem curiosos na forma que o longa é produzido. Nas primeiras cenas, tudo é feito através de planos longos ou sequenciais, trazendo dois elementos que serão importantes no decorrer da narrativa: o lado espacial dos locais e o ambiente. É uma espécie de estabelecimento sobre o que virá pela frente, dimensionando esse personagens. Da mesma forma, há também a construção dramática que será importante para desenvolver a relação familiar da trama. Desde o começo vemos os pesadelos que Nate tem com a ex-mulher, assim como o distanciamento que acabou tendo com as filhas por conta da separação.

Com tudo muito bem encaixado, a ação em A Fera compõe a forma como o suspense também se destacada nos acontecimentos. Em especial, pela maneira como o leão demora a aparecer em sua totalidade. Ele sempre é descrito por outros, ou aparece na mata. A figura se forma mais na cabeça do telespectador do que em tela, o que faz com que o temor pelos protagonistas até então desenvolvidos, se torne ainda maior. A voracidade dele, até brinca com a real possibilidade de sobrevivência em uma situação dessas. Assim, quando o monstro realmente aparece, ele tem toda a dimensão já colocada e o terror já estabelecido.

E o filme traz peso para todas as sequências envolvendo o antagonista da narrativa. Aqueles elementos propostos anteriormente, caso do espaço e do ambiente, vão começando a ficar importantes para localização geográfica do telespectador, ao mesmo tempo que também do quarteto. Tudo isso se deve muito à direção de fotografia de Philippe Rousselot, que transforma o universo em muito palpável e totalmente aterrorizante. Nas cenas que envolvem sair do carro, a tensão é colocada de cara por, apesar de acompanharmos tudo a volta do personagem, nunca sabemos o que está realmente por ali.

Em um cinema de ação contemporâneo cada vez menos interessado nos efeitos das lutas por si só, é impressionante ver como A Fera dá destaque para todos os elementos a sua volta, fabricando um longa que consegue gerar uma conexão única com o público. Apesar de querer transformar todos os acontecimentos em muito maiores do que são em certos momentos,  constrói imagens complexas e um drama que não tem medo de se assumir. Até porque, independente da batalha perante um leão desconstrolado, no fim das contas o que mais importa é proteger os seus, especialmente a família.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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