Crítica – American Son

Uma mãe vai à delegacia em busca de seu filho perdido. Falando assim, American Son parece ser um simples drama/suspense. Mas, alguns detalhes tornam a situação mais complexa do que à primeira vista. É uma mãe negra em busca do seu filho biracial, na qual precisa lidar com um policial branco para descobrir o que de fato aconteceu a ele, em um país que a morte de pessoas negras pelas mãos das autoridades é fato recorrente. O que, para outros, pode ser simplesmente um estresse, para Kendra (Kerry Washington) é o seu pior pesadelo.

American Son, o novo filme da Netflix, ou como a produção se define no primeiro letreiro, “um evento televisivo da Netflix”, conta a história de Kendra, cujo o filho, Jamal, saiu de casa após uma discussão violenta entre os dois, e não deu mais noticias, sem responder mensagens ou sequer atender o celular. Na delegacia, um policial branco novato, Larkin (Jeremy Jordan), mais atrapalha do que ajuda. Assim, a delegacia se torna uma espécie de microcosmo das dinâmicas raciais presentes nos Estados Unidos, e grande motivo de tensão entre os personagens.

O longa é baseado na peça de mesmo nome e conta com os mesmo atores de sua versão na Broadway. O diretor, Kenny Leon, é o mesmo nas duas produções, o que explica o principal problema da obra: de imediato, a sensação de estarmos vendo uma peça de teatro é evidente. Toda a trama se passa em uma locação, e Leon, cujo currículo é formado principalmente por produções teatrais, trata o cenário como se fosse um palco. Sua câmera sempre é colocada no mesmo lugar, apontada para os mesmos pontos, como se fossemos uma plateia.

Isso resulta também em uma inegavel estranheza na atuação. No teatro, o corpo dos atores é o principal motor na ação, não há muito espaço para sutilezas, já que é necessário que toda a plateia veja a mesma coisa. Essa necessidade não existe no cinema, mas American Son não consegue realizar essa transição muito bem. Todas as atuações soam um pouco exageradas, resultando um ar de artificialidade a obra.

Isso não chega a prejudicar tanto o longa, já que, em certos momentos, o diretor consegue conciliar esse exagero teatral para criar momentos muito potentes, especialmente através de uso do desfoque e de close ups em Kerry Washington, a grande força dramática do filme e a única que nunca sai de cena. É dela a tarefa mais difícil de toda a película, que é de descrever a experiência de uma mãe afro-americana em um país que, não importa o que ela faça, seu filho sempre será visto como uma ameaça.

Compreensivelmente, o grande foco do roteiro é o racismo estrutural americano, na qual se encontra em todas as facetas do país: na arquitetura, linguagem e etc. Boa parte dos diálogos envolvem Kendra dissertando esses assuntos para os outros personagens, mas eles não soam didáticos, e sim preocupações genuínas das coisas que os brancos podem ignorar, porém que, para um jovem negro, é a diferença entre a vida e a morte.

O foco é mais sociológico na produção, já que a história em si, fica um tanto em segundo plano. Quando a conclusão chega, o filme só… acaba. Não sentimos uma progressão natural até aquele ponto, contudo sim de que tudo que o roteirista desejava falar já tinha sido dito, então não há mais nada para mostrar. Até o modo como isso ocorre é desinteressante, com um personagem simplesmente lendo um arquivo para os personagens.

American Son está mais interessado no debate do que na condição dramática e realiza isso muito bem, mas acaba sendo um tanto burocrático no modo de tratar a sua história, se preocupando mais em expor suas importantes teses da maneira mais explícita possível. Tudo apresentado pela obra está mais para uma excelente palestra do que para, de fato, um filme.

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