Crítica – Bem Vindo à Chechênia

Em 2018, o Youtuber H.Bomberguy fez um vídeo sobre H.P Lovecraft. Poderia ser mais um de vários vídeos sobre o autor, que passa por uma onda de popularidade nos últimos anos, mas Bomberguy faz uma observação muito interessante. No mundo de Lovecraft, o universo é um lugar impiedoso, frio, cuja existência humana, ultimamente, não importa. Diante disso, Bomberguy, se pergunta: quão diferente de ser LGBT em um mundo que, apesar dos avanços, ainda tenta apagar a humanidade dessas pessoas?

A Chechênia, como bem mostra o documentário investigativo Bem Vindo à Chechênia, é o lugar onde essa opressão aos LGBT’s se expressa de forma mais explícita, ocorrendo quase como uma nova Inquisição. A cada nova apreensão, o foco é fazer com que a vítima entregue mais e mais pessoas, que são torturadas, mortas ou chantageadas, seja por estranhos ou familiares. Ser LGBT checheno é experienciar com máxima potência a ideia de que, diante do universo, você não importa.

O documentário do diretor David France se foca nos esforços de um grupo de ativistas que trabalham para retirar essas pessoas da Chechênia. A primeira cena mostra David Isteev, coordenador da ONG Russian LGBT Network, falando com uma jovem lésbica, cuja sexualidade foi descoberta pelo tio, que ameaça contar para o pai dela, um poderoso membro do governo, caso ela não faça sexo com ele. Esse momento dá o tom desolador para o resto do longa, que mostra uma eterna luta contra corrente. Bem Vindo a Chechênia trabalha com algumas histórias específicas, mas sem perder o foco do geral. Uma delas é de “Grisha”, um jovem russo que foi ao país a trabalho, mas acabou sequestrado, torturado e solto, e se torna uma das melhores chances da ONG de realizar uma denúncia formal sobre o que acontece lá. A outra é de “Anya”,a jovem ameaçada pelo tio.

O clima de paranoia e perseguição é bem estabelecido pelo filme, especialmente porque sabemos muito bem das consequências que esperam para as pessoas que são descobertas. Em certos pontos da produção, nos são mostrados vídeos gravados por torturadores, que mostram pessoas sendo espancadas, mortas e estupradas. Pior ainda, sabemos que isso tem apoio explícito do governo, com entrevistas do presidente falando que “não existem gays na Chechênia”. Diante disso, cenas fora de lugares seguros são inerentemente tensas. Uma visita ao aeroporto, por exemplo, se torna extremamente nervosa, e a paranoia se instala. A câmera foca em um homem de camisa preta que parece olhar a lente. Ele sabe? A situação é frágil, já que qualquer um pode colocar tudo a perder. Mesmo na casa segura, a câmera não consegue deixar de olhar para fora. A escuridão que cerca o lugar pode esconder algo, o trabalhador na estrada pode denunciar aquele lugar.

Por vezes, a insistência no clima sombrio acaba sendo um tanto exploratória, no entanto. Há de se levar em conta a necessidade de exibir explicitamente uma tentativa de suicidio, em um filme tão dedicado em mostrar a luta contra o sofrimento, parece errado querer minar esse mesmo sofrimento de modo tão flagrante, quando já se sabe muito bem o que está em jogo. Por trás das câmeras, a mentalidade de “pegar os melhores momentos” acaba por infringir um pouco na intimidade de certas cenas. Novamente: ao contar sobre um país que nega a individualidade e privacidade de certo setor da população, não seria mais sábio manter um certo afastamento? Não é a toa que o instante de emoção que melhor funciona é justamente quando um casal brinca na praia, sendo observado a certa distância.

Apesar dessas questões, Bem Vindo a Chechênia é uma obra potente, mesmo que pese a mão em certos momentos. É uma história de um país específico, mas não perde de vista que há outros lugares onde essa situação podem facilmente vir à tona.

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