Resenha – Vida de Gato

Como fazer histórias sob a perspectiva de animais? Pode parecer uma tarefa simples, mas acaba sendo bem mais complexa. Até porque nós, como seres humanos, não sabemos a forma  que os bichanos enxergam o mundo. Por exemplo, é possível perceber o certo carinho que cachorros tem com seus donos, mas e o porquê disso? Até que ponto a ciência realmente explica algo? Assim, é bem claro a perspectiva de se tratar de um jogo imaginativo, uma brincadeira buscando um entendimento sobre esses seres, quase analisando filosoficamente a vida deles.

É esse o objetivo do quadrinista belga Serge Baeken. Em Vida de Gato, seu primeiro trabalho lançado no Brasil, acompanhamos a existência do cotidiano sob a perspectiva de felinos. São quatro ao longo da HQ, entretanto um se destaca mais, podendo o chamar de protagonista: Mascavo. O nome já vem de uma espécie de fofura dos bichos, já que o gato caiu em uma caixa de açúcar mascavo. Todos esses pequenos seres vivem em um universo sempre conturbado, buscando uma espécie de racionalidade diária. Porém, até que ponto existe realmente algo racional na atitude deles, como, por exemplo, estar em uma casa durante o sexo de seus pais. Ou até dormir sem motivo aparente? É um pouco dessa ideia que Baeken tenta trazer.

Dentro desse pensamento, é interessante como o autor direciona sua narrativa sempre para um olhar bastante sequencial. Existem alguns momentos de quebra, especialmente quando ele brinca com possíveis diálogos falados entre gatos e humanos. Apesar disso, na maioria dos casos o que acaba acontecendo é sempre uma tentativa de quase antecipação dos movimentos felinos. São sempre 24 quadros, que, às vezes, acabam se unindo em um só – como para formar um prédio -, ou até causando uma sensação de descontinuidade, quando uma cena não tem relação com a outra. A ideia é justamente um andar pela vida sob uma nova maneira de pensar.

No quadrinho também é curioso como Serge Baeken quase nunca vai tentar fugir de um julgamento mútuo entre os animais e os humanos. Um desses períodos é quando Mascavo arranha a cara de sua dona, em uma simples tentativa de acordá-la. Isso causa uma confusão na cabeça do bichano, em não compreender porque aquela sua atitude foi errada, ao mesmo tempo que uma irritação dos donos. É uma perspectiva bastante realista e nada idealizada, como se fosse apenas uma conexão de plena felicidade. Isso gera até um certo medo em alguns instantes, quando pensamos que algo pior pode acontecer. Todavia, Serge suaviza bastante esses períodos visto que sua intenção não é essa. E sim olhar para os gatos como seres independentes da sua própria narrativa.

Em uma questão autobiográfica do quadrinista, Vida de Gato é uma obra que dialoga com qualquer admirador dos animais. Pode parecer boba – e de certa forma é -, todavia o mais curioso é a maneira de tentar observar o mundo sob esse novo olhar. Se estamos acostumados a sempre olhar tudo de cima, culpando em muitas ocasiões nosso animal de estimação por alguma atitude, por que não um entendimento de quem eles são? Afinal, ao fim, gatos, assim como cachorros e mais, não possuem uma relação moral e familiar própria, no entanto eles escolhem amar. E amam seus donos, acima de qualquer coisa.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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