Crítica – Rebecca: A Mulher Inesquecível

Apesar de não possuir um currículo exatamente longo, Ben Wheatley já dirigiu filmes o suficiente para que seu estilo seja reconhecível – sendo isso positivo ou não. É seguro dizer que suas obras podem receber muitas categorizações, mas “convencional” não estão entre elas. Dito isso, é curioso como uma refilmagem de um dos filmes de gênero que mais se encaixam em tais qualidades foi parar em suas mãos. Ainda que o romance de Daphne Du Maurier tenha tido algumas adaptações desde sua publicação em 1938, a popularidade e a aclamação da versão de Alfred Hitchcock de 1940 ainda permanecem. Por isso, trazer uma história conhecida de tal maneira nas mãos irreverentes de Wheatley desperte, no mínimo, curiosidade. É isso que tenta fazer Rebecca: A Mulher Inesquecível.

A estrutura da história é a mesma. Em Monte Carlo, uma jovem dama de companhia se encanta por Maxim de Winter, um aristocrata que há pouco perdeu sua amada e conhecida esposa Rebecca, mas retribui e encoraja os sentimentos da moça, não demorando muito para que eles se casem e ela se torne a nova Senhora de Winter. O casal retorna à famosa Manderley, a enorme mansão da família na Cornualha. O local é gerido por uma enorme equipe de empregados, liderados pela imponente e fria Senhora Danvers, que era muito próxima da antiga Sra. de Winter. De origem humilde, a moça precisa se acostumar aos costumes rígidos de sua nova classe social e seus deveres como a senhora de Manderley, mas logo ela descobre que a presença de antiga mulher de seu marido está mais forte do que nunca, e que estar à sombra de Rebecca pode ser fatal.

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Ao anunciar o projeto, a própria Netflix o descreveu como uma adaptação “visualmente deslumbrante do clássico thriller psicológico” e nisso ela não mente. Durante os primeiros 30 minutos, um tom de sonho domina a narrativa, graças à cinematografia de Laurie Rose e a montagem de Jonathan Amos. As cores quentes destacando o belo visual litorâneo e as cenas que passeiam entre passado e futuro são perfeitas para a construção do romance inicial. No entanto, depois que os corredores de Manderley passam a ser o cenário principal, isso muda. O clima gótico que é tão intrínseco aos temas da história some, e nem mesmo o belíssimo casarão e as praias que o rodeiam são bem aproveitados nesse quesito.

Com exceção desse aspecto, poucas escolhas criativas redimem essa nova Rebecca de um propósito claro para existir. Os eventos se sucedem em ritmo acelerado, e nisso não há nenhuma construção da ameaça constante de Rebecca sobre a mocinha. Cenas que deveriam ser cruciais, como o confronto entre a Sra. Danvers e a Sra. de Winter, não possuem peso nenhum. A sequência em que a Sra. Danvers tenta a mocinha a se suicidar tem o mesmo nível que a cena em um antigo brinquedo caro é destruído, por exemplo. No filme original de 1940, graças ao Código de Conduta de Hollywood, temas essenciais para a história como o destino verdadeiro de Rebecca e a natureza da obsessão da governanta foram diluídos. Algo que em 2020 deveria ser melhor aproveitado é quase esquecido aqui.

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Lily James e Kristin Scott Thomas são as atuações que conduzem a trama. Enquanto James vem com o usual carisma para um papel já suficientemente ingênuo, o embate com a implacável frieza que Scott Thomas traz para sua Sra. Danvers é o que consegue construir algo minimamente interessante e diferente para esta adaptação. Por outro lado, Armie Hammer está mais estoico do que nunca, quase esquecível diante do esforço das outras duas protagonistas.

Por fim, ainda que possua atuações comprometidas e uma deslumbrante fotografia, o filme simplesmente falha em construir a tensão que essa famosa história de (quase) fantasmas pede, da mesma forma que apenas conhecemos as sombras desses personagens, escondidas sob uma direção pouco inspirada e um ritmo truncado. Assim como a infame Rebecca, há a sombra em Rebecca: A Mulher Inesquecível de um filme memorável com este mesmo elenco, perdida por aí, vagando entre reuniões de produtores e grandes estúdios americanos, uma ideia muito melhor do que sua execução.

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