Crítica – Canto dos Ossos

Mapear as referências de Canto dos Ossos não é a tarefa mais difícil. Dá pra ver claramente o espírito artesanal e gore do Zé do Caixão, com toques de Evil Dead e o low-fi de Bruxa de Blair, entre outros, já que se há um cenário onde o baixo orçamento impera é no terror, estadunidense ou brasileiro. Mas mesmo pegando emprestado de várias fontes, e deixando esses empréstimos em evidência, o longa de Jorge Polos e Petrus Bairros consegue ter aura própria, singular.

Há uma história aqui, mas ela não importa tanto quanto de costume, sendo esfiapada e fragmentada, envolvendo vampiros no sudeste e no nordeste. Uma estranha conspiração envolvendo hotéis, assassinato de jovens, vinhos baratos e pessoas LGBTQ. Soa como bagunça, porém a aposta da dupla de diretores para manter isso tudo coeso na atmosfera, sempre soturna, instável, que vai no limite do possível tecnologicamente – imagens noturnas extremamente granuladas, um relâmpago rápido demais para o obturador – ao explicitamente artesanal. Não há questão de se esconder, por exemplo, que o filtro vermelho de uma das cenas é na verdade papel celofane.

Essa postura estética ajuda a compor o mundo-esboço de Canto dos Ossos, que se pauta pela não especificidade. “Você é aquela pessoa que tava no bar daquele dia?”, uma frase que em situações normais não significa nada, nesse espaço é válida e não gera qualquer espécie de dúvidas. Essa postura se volta também aos cenários do filme, que, mesmo tendo um de seus eixos narrativos em uma cidade turística do Rio, pouco a explora, e os locais são obras semi inacabadas, praias escondidas, becos sombrios ou hotéis genéricos.

Há uma dicotomia muito interessante nos aspectos vampirescos da trama. Os protagonistas, se é que podem ser definidos assim, são figuras periféricas, marginalizadas. Naiana (Rosalina Tamiza) é professora, que veio do nordeste para dar aula em Búzios,e entra em conflito com os métodos do novo diretor do local, enquanto Diego (Maricota) permaneceu lá, trabalhando em uma farmácia. Não há preocupação em criar uma espécie de simpatia pelos dois, seus ataques vampirescos são brutais e animalescos, e até há momentos que o horror da vítima é o foco, mas aos poucos, essa disseminação do vampirismo se torna uma espécie de resistência, especialmente diante da figura opositora, um vampiro em franca decomposição, que reside em um hotel, cujo seus aliados, todos homens brancos, não são vampiros, mas sim pessoas comuns, que o orbitam em busca de… algo. Manter o status quo, mesmo que ele já tenha mais do que passado do prazo de validade e traz até mais prejuízo a eles mesmos? Provavelmente.

O que é represado por uns se torna ferramenta de quebra de ciclos para os outros. Em certo momento, Diego conta as circunstância que o deixaram com cicatriz, resultado de um tiro. Nos momentos finais do longa, o cenário se repete, e Diego se vê novamente sob a mira de uma arma, mas ele não se encontra mais sozinho: compartilhou seu presente para outro, e juntos derrotam o algoz.

A ideia da vida eterna como uma maldição é sempre presente nas histórias de vampiros, e até a ideia do vampiro é usada para descrever como algo inerentemente maligno, com Marx frequentemente o associando ao Capitalismo. Canto dos Ossos não discorda dessa ideia, mas propõe também que é um bom uso para a vida eterna é possível, mesmo que venha com a enorme desvantagem da necessidade de sangue. Não é de graça que, em um filme marcado por uma imagem instável e nervosa, há momentos de serenidade, como quando quatro jovens vampiros se divertem tranquilamente a beira do lago. Vida eterna não precisa ser uma maldição, basta saber com quem compartilhar.

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