Crítica – Casa de Antiguidades

Fazer um filme político – ou com tons políticos – atualmente se tornou uma tarefa bem menos complicada. Tomar uma posição política em tempos de redes sociais se tornou questão mais de usar as palavras chave corretas, curtir as coisas certas e adornar os símbolos certos. Uma frase pode te definir como sendo de um grupo ou de outro. Assim, para um longa ser “político”, basta que alguns desses elementos simples estejam presentes e está pronto o longa politizado.

Casa de Antiguidades que sabe muito bem que símbolos colocar em cena para “mandar uma mensagem”. A produção, dirigida por João Paulo Miranda Maria, acompanha Cristovam (Antônio Pitanga), que trabalha em uma fábrica de leite no sul do país. Originário do Nordeste, Cristovam se sente deslocado na região, majoritariamente branca e que falam mais alemão do que português. O passado começa a se manifestar de forma física em sua vida, por meio de uma estranha casa na floresta, e os atritos culturais acirram as tensões entre o homem e o local.

O longa consegue estabelecer bem a sensação de “não pertencimento” de seu protagonista. Já que na primeira vez que o vemos, ele é um figura despersonalizada: dentro de sua roupa de trabalho, ele parece ser mais um personagem de ficção científica dos anos 50. Há um furo na sua luva protetora que não revela pele, mas sim um profundo vazio. A sensação de deslocamento continua quando, em uma conversa com seu patrão, este fala alemão, e não português. Estabelecer o mundo e seus problemas não é problema para Miranda.

E os problemas são muitos, além da alienação de Cristovam, há também o capitalismo e o racismo, que reforçam o protagonista a aceitar salários cada vez mais baixos, já que não há muita escolha para um homem negro e idoso. Resta abaixar cabeça e seguir do jeito que dá. Sem contar o movimento separatista que tem grande força na cidade, querendo tornar o Sul um país próprio.

Para lidar com essa miríade de questões, no entanto, Miranda Maria realiza escolhas absurdamente óbvias, mas envoltas em um ritmo mais lento como se isso conferisse algum status mais “artístico” a obra. O longa se apoia em símbolos muito óbvios para demarcar os “mocinhos” e os “malzinhos”, e até mesmo para estabelecer nuances não consegue deixar esses elementos explícitos para trás. Para gerar simpatia a Cristovam, é colocado um cãozinho deficiente para que ele cuide, e a antipatia com a população se dá por meio da morte desse mesmo cachorro. Em certa cena, vemos um discurso nacionalista em um palanque dito inteiramente em alemão, é como se todas as piadas sobre o sul ser nazista ganhassem uma estética arthouse. Para que Cristovam – que conforme o longa progride passa a representar mais as tradições perdidas do que um indivíduo – não seja uma figura totalmente idealizada e vitimada, ele agride uma mulher com um soco. Eis a nuance.

Quando não está sendo óbvio, o longa parece simplesmente tacar coisas em cena para ver o que cola. Alguns momentos até são interessantes quando trabalhados, mesmo que vazios. A produção sabe brincar com os elementos do cinema de gênero, já que além do sci fi, há toques de terror também, resultando em cenas memoráveis, como o ataque da pantera fantasma.

Não ser genérico não é problema para Casa de Antiguidades, porém a pergunta que fica ao final de tudo é: para que todas essas particularidades serviram? Obviedade em si não é problema, afinal, Bacurau não é exatamente sutil ou complexo em sua narrativa, mas funciona dentro da catarse final que propõe. Já o filme aqui encontra maneiras muito bonitas de mostrar que o Brasil é racista e que estamos perdendo nossas raízes, no entanto de modo tão esparso que nada possui o peso devido. Só falar as coisas certas não basta.

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