Crítica – Shirley

Não há um tratado comum sobre a figura de Shirley Jackson. Uma das figuras mais famosas da história de terror e suspense, a autora tem em seu lado um grande pioneirismo dentro dos gêneros. Junto de Mary Shelley, são as grandes escritoras de maior relevância durante o século XIX e XX. Shirley, todavia, sempre ficou bastante marcada pelo seu lado tempestuoso e tratamento até bastante rígido – o que a rendeu a fama, como geralmente ocorre com as mulheres, de “maluca”. Apesar disso, sempre muito interessada no trabalho, se tornou uma voz interessantíssima e super importante durante toda sua carreira até a morte, em 1965.

No filme que retrata sua biografia, acompanhamos uma espécie de parto conjunto. A autora, interpretada por Elisabeth Moss, está em busca de escrever seu novo livro, porém encontra sérias dificuldades com ideias e pensamentos. Tudo isso começa a mudar depois que um jovem casal chega até sua residência para viver com um tempo entre ela e seu marido, Stanley (Michael Stuhlbarg). Enquanto Fred (Logan Lerman) trabalha com Stanley na faculdade, Rose (Odessa Young) acaba ficando grávida e mais em casa, torna-se muito próxima a Shirley. A partir disso, a jovem começa a se tornar cada vez mais esquisita e com comportamentos bizarros.

Famosa mais pelo seu longa anterior, A Madeline de Madeline, Josephine Decker faz uma produção com bastante rigor para com a construção de seu universo. É uma obra sobre obsessões de cada um dos quatro personagens principais envolvidos. Essas obsessões podem reverberar como buscas pessoais – no caso de ter um filho ou a escrita de um livro – ou em um caráter mais social – como na loucura por mulheres. Cada um desses personagens está o tempo inteiro atrás de suas intensas questões, como se fossem sempre únicas para eles. Através desse loucura empreitada pessoal, Decker traz os diversos tensionamentos para o acontecimento de cada uma delas. É como se todas fossem conectadas, de uma forma ou de outra.

A narrativa, assim, busca sempre um caráter ilusional, como se estivesse a todo instante brincando com o que o telespectador está realmente assistindo. Dessa forma, vemos um grande jogo de poder se formar, especialmente sobre as duas protagonistas chave para a trama: Rose e Shirley. Ambas, ao se aproximarem, começam a reverberar características uma da outra, como se fossem cada vez mais uma pessoa só. Existe também um certo caminho de terror e suspense na obra, em uma quase brincadeira metalínguistica com o gênero que a autora escrevia, para traçar um paralelo sobre esse simples medo de ser mulher na sociedade. O longa em si trabalha de forma pincelada esse aspecto, como ao trazer uma fala de Shirley sobre o assunto, além da relação erótica de umas meninas em uma árvore – a qual Rose se vê confusa sobre a situação. Dessa forma, chega até lembrar o filme Wanda, de Barbara Loden, ao brincar com o conceito propriamente de ser mulher no mundo.

É curioso como Shirley chegue até a adotar um caráter experimental, especialmente no caráter sexual. É como se aquilo sempre rondasse esse universo nas suas diversas instâncias, como em traições, contudo sendo apenas consumo diretamente nas câmeras da cineasta apenas por marido e mulher. O desejo sexual feminino, sempre bastante renegado ao longo da história humana, também serve um papel para isso. De certa forma, Josephine Decker idealiza um conceito de sociedade humana quase liberal, mas que isso nunca pode se concretizar complemtamente. Do mesmo jeito que horrores dos livros de Jackson parecem tão reais para alguns personagens (vide a fala do reitor em um dos trechos finais), porém nunca feitos de verdade.

Assim, Shirley é verdadeiramente um filme que sabe trabalhar de maneira complexa a figura, tão complexa quanto, de Shirley Jackson. Em uma realização que flerta com certas questões de gênero, a obra se solidifica na sua parte dramática ao tensionar as buscas e obsessões de cada um de seus personagens. Abandonadas, as mulheres se formam quase em uma só ideia, em uma persona apenas, o que também é trazido dentro do próprio livro que a autora está escrevendo. No fundo, é como se todo esse mundo fosse apenas movido por desejos, mesmo que esses quase nunca sejam correspondidos.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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