Crítica – Cat Person: E Outros Contos (Kristen Roupenian)

Kristen Roupenian surgiu de “lugar nenhum”, se é possível dizer assim. Seu conto “Cat Person” fez extremo sucesso na revista New Yorker em 2017 e ela virou um nome a ser ouvido na literatura atual americana. Abrindo um debate bem grande com esse trabalho especificamente, sobre toda a questão de subjulgação feminina e estupro, ela acabou consolidando-se como um nome da literatura do estilo também. Foi para um certo nicho, porém incomodando a tudo e todos, além de falar muito mais sobre nosso espírito sexual. Por isso tudo, seu trabalho, nessa coletânea Cat Person: E Outros Contos, merece ser olhada com tanta atenção.

A edição reúne 12 contos escritos por ela nos últimos anos. O principal laço de toda sua obra parece bastante claro: falar sobre nossos desejos sexuais. Contudo, Kristen não realiza isso de uma forma erótica, trabalhando por lado da lábia dos personagens ou até na descrição mais “picante” das situações. Não, não. Ela busca um olhar meio pertubador sobre os nossos desejos sexuais intrínsecos como seres humanos. Isso não é idealizado em contos propostos pelo sexo, mas pelo desejo, transformando-se, assim, em diversas publicações de suspense. Podendo colocar a autora em algum lugar, talvez esse seja o mais próximo.

Ela faz isso através de um uso da forma do seu texto um tanto quanto peculiar. Seu principal caminho a ser seguido dentro de cada narrativa é, como falado anteriormente, expressar esse quesito meio tensional, todavia bastante relacionado ao corpo. Roupenain possui uma relação e questão bastante única para destrinchar o nosso corpo, falando desde relações de serventia, até sobre a própria impulsão. Em “Seu Safadinho”, a abertura do livro, o uso das palavras gera uma aflição quase inerente a condição da protagonista e do homem dominado por ela e seu marido. Apesar do conto chegar a tentar tratar isso como uma espécie de fetiche, não usa de um desejo de todos, mas uma certa bizarrice no ato. Assim como em “Aquela Que Morde”, o último, na qual fala sobre uma personagem no limiar de explodir pela sua vontade de morder um homem. Entretanto, isso acaba colocando um ponto mais incisivo sobre a sociedade.

Em seus escritos, a autora não tenta fazer um debate político propriamente dito. Não tenta colocar esse quesito corporal como uma discussão da sociedade, especialmente tratando do corpo feminino. Ela, apesar de não por esse lado dentro das histórias, acaba tocando nesses assuntos por abordar o sexo. Apesar disso, é interessante perceber como – às vezes – há uma tentativa de subverção de um andamento mais clichê, olhando um lado meio maléfico dos hormônios.

“O Garoto na Piscina”, “O Cara Legal” e “Não Se Machuque” talvez sejam bons exemplos disso. Apesar de na segunda trabalhar realmente todo o desenvolvimento de ponto de vista no personagem masculino, suas ações se baseiam em um certo julgamento perante mulheres. Ele é tratado e busca ser tratado como menor. Já na primeira falada, o desejo de um longo período volta a ser expressado em uma tentativa de trazer uma certa especulação da nossa mente. Como ficaríamos ao perceber que os desejos da infância e adolescência estão disponíveis em nossa frente? O conto tenta colocar isso como um ponto chave. Já o último parece estar bem mais relacionável a esse total domínio da figura feminina controlando uma situação de invocação. Ela usa e abusa do seu próprio desejo, em busca de realmente saber se possui ele.

Cat Person: E Outros Contos é um livro na qual reúne os pensamentos e digressões um tanto quanto pertubadores de Kristen Roupenian. Ao trabalhar sempre trajetórias de um certo fracasso construído pelo sexo, o desejo gera sempre uma problemática com a carne, o corpo. Esse é seu principal foco de desenvolvimento, buscando narrativas sobre quase um pensamento primordial humano. Nesse quesito, ela acaba transformando seus textos, nessa mistura de suspense e erotismo, bastante filosóficos sobre a humanidade.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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