Simonal: Uma lenda esquecida pelo tempo (e outros fatores)

Embora nunca tenha ido embora, é justo dizer que a cinebiografia é um dos gêneros que mais está brilhando as grandes telas de cinema. 

O sucesso estrondoso de títulos como Bohemiam Rhapsody e Rocketman, principalmente pelo curto espaço de tempo, exemplifica bem isso. Ainda em 2019 poderemos ver também a história de Judy Garland, que será interpretada por Renée Zellweger

Se essa “febre” está em alta no cinema americano, recheado de produções gigantes e roteiros de alto orçamento, na produção brasileira isso é ainda maior. Um dos maiores patrimônios da cultura nacional é a sua enorme e respeitável galeria de músicos e artistas na qual marcaram e continuam a encantar gerações conforme o tempo passa. Assim como as famosas comédias de selo Globo Filmes, as biografias dessas pessoas extraordinárias também lotam nossos títulos. Passando por nomes como Cazuza, Erasmo Carlos e Elis Regina, o próximo a entrar para a galeria daqueles eternizados pela sétima arte é Wilson Simonal

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Wilson

Em seu auge, Simonal comandou três programas de grande destaque na televisão e assinou um dos maiores contratos publicitários da época. Em 2012, foi eleito pela Rolling Stone Brasil como o quarto maior cantor brasileiro de todos os tempos. Com esse histórico de sucesso, era de esperar que fosse tão cultuado quantos seus colegas da época. 

Mas um episódio em sua história impediu tudo isso.

Filho de dois mineiros da classe trabalhadora, Wilson Simonal de Castro teve aulas de canto na escola e era durante reuniões com os colegas em praças que mostrava todo o seu talento, cantando sucessos da época em inglês. Ele também teve aulas de piano e violão com Edson Bastos, filho da pianista Alda Pinto Bastos. 

É de se imaginar que, quando foi convocado por servir no quartel, Wilson deixaria a música de lado. No entanto, foi lá que ele aperfeiçoou o que seria um dos traços mais marcantes da carreira: dominar o público. Além de participar de vários bailes, também era chefe de torcida do time do quartel. Se transformou em uma das figuras mais marcantes nesses lugares na época.

Após dar baixa do exército como sargento, Simonal formou o Dry Boys, junto de seu irmão Zé Roberto e os amigos Zé Ary, Edson Bastos e Marcos Moran. O grupo não durou muito, porém, já que foram recusados por uma gravadora e isso acabou levando ao fim deles. Simonal seguiu carreira solo com proteção do grupo Imperial, popularizando-se através de apresentações em boates e clubes. Em 1961, lançava seu primeiro compacto com a gravadora Odeon. Graças ao sucesso dos shows, ele foi convidado para apresentar o programa Spotlight na TV Tupi. Nessa época, Simonal também foi pioneiro ao ser um dos primeiros a gravar canções de compositores como Caetano Veloso e Chico Buarque

Em 1966, o cantor se despediu da TV Tupi e ingressou na TV Record, canal de grande destaque por seus programas musicais. Tornou-se atração fixa em “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, além de participar da Jovem Guarda com Roberto e Erasmo Carlos. Durante esse período lançou alguns de seus maiores sucessos, como “Mamãe passou açúcar em mim” e “Carango”.

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Em 1969, junto de nomes como Os Mutantes, Gal Costa, Maysa, Jorge Ben e Milton Nascimento, Simonal se apresentou no Maracanãzinho para abrir o show de Sérgio Mendes, em um contrato poderoso com a Shell. A apresentação marcou a carreira do cantor, na qual não cantou mais de sete músicas e foi ovacionado pelo enorme público, que era de mais trinta mil pessoas no Rio. O sucesso foi tanto que durante a apresentação de Mendes a plateia ainda pediu bis, não sossegando até que ele voltasse para os palcos. Após o show, as críticas também se mostravam muito favoráveis ao cantor, deixando claro sua força como artista.

E foi por essa força que a Shell o contratou como garoto-propaganda, no que foi divulgado como um dos maiores contratos publicitários do Brasil na época. Com acordos cada vez mais vantajosos, ele decidiu empresariar a si próprio, criando a Simonal Produções Artísticas.

O problema foi que tudo deu errado quando as contas não batiam em sua produtora.

Após uma breve investigação, Simonal estava convencido de que estava sendo lesado por toda sua equipe de contadores, cortando relações profissionais com todos. No entanto, o membro Raphael Viviani entrou com uma ação trabalhista contra o cantor, já que havia perdido a moradia junto com o emprego por causa do fato de Simonal pagar seu aluguel. Ele havia trabalhado como contador do artista. Foi a fúria por essa ação que começou a cavar o fim de sua carreira e a construir o ostracismo que o seguiria até sua morte.

Em plena ditadura, ele mexeu alguns pauzinhos com alguns policiais do DOPS que o haviam interrogado anos antes, dizendo que estava recebendo ameaças anônimas que só podiam vir de Viviani. Não demorou nem um dia para que o contador coagido a confessar o desfalque na empresa. Insistindo em sua inocência, foi levado para a sede do DOPS e e torturado até assinar uma declaração confirmando sua autoria no suposto desfalque. No entanto, a esposa de Viviani logo entrou em contato com a polícia. A notícia logo escapou para a imprensa e o envolvimento do cantor não poderia ficar de fora das manchetes. Então, Simonal ganhou mais um título em sua reputação, um que certamente não traria tanto brilho quantos os outros: dedo-duro.

Portanto, embora só haja comprovação de que o cantor realmente quis dar um “susto” em seu ex-contador, a fama de delator do BOPS em meio ao clima do regime militar o fez ser execrado no meio artístico. A queda foi rápida e cruel: perdeu contratos, ficava cada vez mais difícil arranjar equipes e material para gravação de discos, trocando os grandes espetáculos por pequenos shows em boates e clubes outra vez.

Com o tempo, infelizmente Simonal acabou se tornando alcoólatra, prejudicando ainda mais suas capacidades vocais. Ainda que se mantivesse fazendo pequenos shows e até chegando a gravar um CD quando o formato estourou em meados dos anos 1990, o cantor faleceu de cirrose em 2000.

O legado

Não é novidade para ninguém que a história nunca foi piedosa com os negros. Um negro de sucesso, portanto, teria muito menos sorte nesse quesito. Em uma época marcada pela tensão política, onde racismo e preconceito eram ainda mais fortes do que hoje, Simonal foi um dos cantores mais populares e bem sucedidos do país, adquirindo títulos inéditos para qualquer músico da época. Uma de suas apresentações mais marcantes talvez seja aquela com Sarah Vaughan, exímia cantora de jazz americana, que claramente se encanta pelo cantor durante o show. Confira:

O caso do DOPS pareceu apagar todas as conquistas prévias para transformá-lo em um “delator”. Ainda que muita pesquisa fosse feita e nada comprovasse de fato um envolvimento e associação de Wilson com o regime militar, o cantor morreu sem sair do ostracismo.

No início dos anos 2000, após muita luta da família, um processo foi aberto para apurar a veracidade de tais acusações. Em 2003, ele finalmente foi moralmente reabilitado pela Comissão de Direitos Humanos da OAB. As tentativas de trazer a imagem do cantor para uma posição mais justa viriam somente anos mais tarde, através de documentários como Ninguém Sabe o duro que eu deide Claudio Manoel. Com participação inclusive de Ricardo Viviani, a conclusão do projeto é de que o cantor pagou caro demais por algo desproporcional ao que ele fez. Alguns outros nomes, como o historiador Gustavo Alonso, trazem outra questão para a história de Simonal: sua queda não veio pelo racismo, justificando sua eventual exclusão da cultura pela habilidade inegável do cantor com a cultura de massa através da Pilantragem e o embate entre o predominante Tropicalismo e o estilo de música mais moderno, como o soul, que Simonal tanto flertava.

Após o sucesso de biografias de nomes como Elis Regina Tim Maianão é surpresa que Simonal tenha seu próprio filme ocupando as salas de cinema atualmente. Segundo Fabrício Boliveira, que dá vida ao cantor, a produção o deixou mais atento. Para o filho de Simonal, Max de Castro, que ouvia que seu pai era um “assunto maldito”, e portanto, não poderia render uma película, o papel do longa não é sentenciá-lo como vilão ou mocinho, mas apenas trazer seu lado da história”. Para Isis Valverde, que interpretou a esposa Tereza Pugliesi, foi uma lembrança de como, ainda hoje, comportamento, sucesso e raça estão intrinsecamente ligados: “Se eu tropeço, quebro uma câmera, uma semana passa e todo mundo esquece. Se é um negro, ele vai arrastar essa câmera pelo resto da vida.”

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Dirigido por Leonardo Domingues, Simonal estreou nos cinemas no dia 9 de agosto.

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