Crítica – O Cemitério das Almas Perdidas

Usar a arte como forma de refletir a sociedade e a construção de símbolos é algo realmente até comum ao longo da história, ainda mais em nosso país. No terror, essa tendência se acentuou durante os anos 60 e 70 ao redor do globo, especialmente com o crescimento de uma dose de antropologia para dentro do gênero – algo que esteve desde o início, mas foi virando destaque. No Brasil, isso também esteve presente com José Mojica Marins, falecido recentemente. Com seu alter-ego, o Zé do Caixão, ele trazia um sadismo para a Ditadura Militar, em uma criação de contravenção a tudo que era feito e pensado.

Essa contravenção passa gerações e ganha ecos para uma transformação da tradição historica brasileira. O racismo e a morte de índios e negros foram comuns ao longo da vida do país, e estão refletidos cada vez mais claramente em filmes recentes, sejam eles feitos por cineastas negros ou brancos. As raízes complexas da nossa civilização começam a ser pensadas no terror cada vez mais, chegando de forma potente no novo filme de Rodrigo Aragão, O Cemitério das Almas Perdidas. Aragão, já muito interessante em criar uma tradição do horror no cinema underground no país, já debatia temas sociais anteriormente. Agora vai de cabeça para uma profunda realidade nacional.

É curioso como parecemos estar, por um tempo, em contato com um longa preocupado em traduzir toda essa mitologia antes de entrar realmente na parte gore. Elementos estão claros desde a primeira cena, com uma espécie de padre venerando Satanás. Todavia, essa formação de preconceitos acaba sendo um preconceito que se consolida pela construção de personagens sempre fora de uma realidade. Os indígenas, negros e até artistas são censurados e tratados sempre de forma para trazer a morte. Quando esses grupos reagem dentro da produção, em busca de um contra-ataque, é aonde a morte aparece de forma mais clara. A crítica de Aragão se apresenta nessa consolidação de uma forma de matar que não envolve muito sangue, mas acontece escondida dentro do âmago do Brasil.

Essa relação de uma exclusão dos grupos excluídos socialmente acontece especialmente através de entes da Igreja e pessoas com forte relação com figuras cristãs. Esse é outro ponto de forte construção nacional, visto que as religiões representaram uma consolidação do ódio contra esses grupos durante muito tempo. Um destaque fica para os católicos, explorados no terço final da narrativa. Eles são o grande confronto climático para a trama em si, que envolve um caráter forte relegioso nas batalhas. Da mesma forma, grupos evangélicos também são retratados inicialmente, como uma reverberação desse pensamento de renegar o passado.

Talvez, falte a narrativa uma maior coesão, já que nem todos seus elementos críticos em separado acabam colidindo tão fortemente. Certas cenas – como a derradeira do longa – acabam, assim, perdendo um pouco de seu impacto. A relação de elementos de épocas diferentes também soa sempre um pouco cansativa quando é modificada, demorando um certo tempo até que a trama propriamente se encaixe para ir mais a frente. Apesar desses fragmentos, jhá um conjunto temático e dramático que reforçam bem toda a busca de ser retratada por parte do diretor.

O Cemitério das Almas Perdidas é um grande amalgama sobre a construção da atual sociedade brasileira ser pautada em diversos problemas de seu passado. Rodrigo Aragão olha fortemente para o legado de Ivan Cardoso e José Mojica Marins, buscando um horror nacional que não esqueça a história de sofrimento brasileira. Cada cena é como se mostrasse cada vez mais um problema que nunca morreu e, dentro do país, parece nunca querer ser resolvido. Nessa estrutura temporal, o cineasta espelha nosso presente racista, assassino e misógino, em um passado igual.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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