Crítica – Irmandade (1ª Temporada)

A Netflix continua sua iniciativa de incentivar produções originais nacionais, que deu origem a obras como 3% e Sintonia, abordando o mundo de ficção cientifica e da periferia paulista, respectivamente. A mais nova tentativa dessa categoria é Irmandade, na qual coloca o telespectador no cenário da facção criminosa titular. Isso tudo ocorrendo durante os anos 90, e os dilemas daqueles envolvidos com ela.

A protagonista da série é Cristina (Naruna Costa), uma advogada do Ministério Público que, após a prisão do irmão, Edson (Seu Jorge), quando era criança, nunca mais o viu. Seu contato retorna quando ela encontra os arquivos do processo dele, descobrindo assim que ele se encontra na solitária. Inicia-se, assim, uma forja de documentos para tirá-lo de lá, o que é descoberto por Andrade (Danilo Grangheia), um policial que deseja desmantelar a facção a todo custo. Ele oferece a Cristina um acordo: em troca de não ir para a cadeia, ela precisa se infiltrar na organização do irmão, até que ela descubra o paradeiro do outro chefe, Carniça (Pedro Wagner), recém-fugido da prisão. Sem escolha, Cristina aceita, e acaba se embrenhando cada vez mais no mundo do crime.

É uma premissa com grande potencial dramático, colocando em disputa laços de sangue e aqueles forjados no mundo do crime, assim como se propõe a discutir os problemas do sistema penitenciário, cuja truculência e maus tratos acabam empurrando os presos para o crime, ao invés de ajudá-los. A Irmandade, diz a série, surge como um reflexo dessa situação, como modo de defesa dos presos.

Todavia, isso só fica nas palavras. Um dos maiores pecados da produção é definir muito mal o que de fato seria a Irmandade. Edson afirma, logo em sua primeira cena, que a facção existe para defender os presos contra a opressão do sistema, mas isso não é explorado em momento algum. É bastante óbvio que o fator policial e o administrador da prisão são os antagonistas da história. Os vemos torturando pessoas, prejudicando e manipulando outras, e assim por diante. Vemos pouco, no entanto, de uma verdadeira definição para essa ideia/termo. Falta uma verdadeira resposta de como essa organização é uma resposta para com a violência.

Se era intenção da obra era justamente colocar em cheque as afirmações de Edson, isso também é mal executado, já que os momentos de triunfo da organização são expostos nitidamente como situações positivas da trama, com música de fundo triunfante, personagens sorrindo e até um momento que remete aos gritos de “Liberdade!”, advindos de Coração Valente. Também não ajuda muito o fato da facção adversária se intitule Seita do Crime e estupre presos que não acatem as suas ordens.

Muito pouco se faz também com o aspecto familiar da história. A relação entre Cristina e Edson, no qual poderia ser o ponto focal da série – com, afinal, o nome de Irmandade -, mas quase não é colocada em cena. Seu encontro, após de 20 anos sem contato, não tem impacto. Uma revelação importante sobre a prisão de Edson é deixada de lado em segundos. Para uma premissa que se baseia tanto nas relações familiares, é estranho que ela não seja uma figura tão importante para o seriado.

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Entretanto, existem bons momentos nesse desenvolvido, apesar de um tanto esparsos. Quando o foco é no conflito interno de Cristina e o preço que ela paga pela vida dupla, temos cenas muitíssimo interessantes. Outros períodos bem executados envolvem ações mais espetaculares, como um assalto a um carro forte, realizado em paralelo com uma coletiva de imprensa feita justamente para avisar que esse tipo de crime não aconteceria mais, é particularmente tensa e inventiva.

A primeira temporada de Irmandade traz consigo boas ideias, porém parece que falta um pouco de confiança na produção entre realmente se aprofundar nos temas que deseja explorar. Essa circunstância faz toda a obra se contentar em mais, simplesmente, emular clichês do gênero e em fazer pose do que em explorar as questões que coloca em jogo. Talvez com o cenário já estabelecido nesta temporada, os criadores se sintam mais à vontade no ano vindouro, podendo, assim, saber relacionar todos os interessantes elementos presentes já aqui.

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