Crítica – Macabro

Usar o terror e o suspense para tratar de temáticas sociais, é algo quase corriqueiro na história dos gêneros ditos de “nicho”. Entretanto, isso acabou sendo realizado, na maior parte dos casos, como uma forma de denúncia a alguma realidade, como em casos mais antigos como Vampiros de Almas, de 1956, em que abre portas para debate sobre o macarthismo ou uma crítica ao comunismo. Do mesmo modo, Corra!, de 2017, abre espaço para observar a realidade de pessoas negras em um mundo dominado pelo racismo. Dentro do Brasil, o gênero também já foi desmembrado por Zé do Caixão, ao trazer em seus longas frequentes críticas ao Regime Militar nos anos 70. Com Macabro, essa onda continua nos tempos atuais, em uma tentativa de absorver um conceito extremamente atual para 2020, com os protestos após a morte de George Floyd: o racismo policial.

No longa, acompanhamos a história do policial Teo (Renato Góes), que após matar um homem negro inocente em uma favela do Rio, é chamado para realizar uma investigação sobre dois homens canibais no interior do estado. O local foi sua residência quando criança e serviria também de uma maneira a esconder as pressões que a Polícia do Rio sofria para punir Teo. Lá, com a ajuda de Everson (Guilherme Ferraz), ele encontra um passado que não o queria presente.

Apesar de tentar tratar do tema racial, é incrível como Macabro não percebe o racismo que reverbera dentro de seu protagonista. A direção de Marcos Prado observa um universo quase lisérgico quando o protagonista retorna ao seu local de infância, ao trazer planos sempre muito elaborados visualmente. Todavia, isso serve quase para mascarar os próprios traços de personalidade do protagonista, que reforçam tudo que ele parece combater. Baseada em fatos reais, a trama fala sobre os Irmãos Necrófilos, que ficaram conhecidos nos anos 90 no estado do Rio de Janeiro. Os dois, negros, são vítimas de todo o tipo de preconceito pela cidade. Teo vira uma espécie de salvador da guarda dessa discussão racial.

É bizarro realmente como não há um desenvolvimento desse personagem para que o debate temático que o longa propõe faça sentido. A todo tempo, as câmeras quase tentam olhar de maneira benevolente para um personagem que – no início do filme – mata uma pessoa inocente. Isso deveria ser motivo de alguma análise psicológica de suas características, até mesmo para que faça sentido futuramente ele falar frases como “Você é racista!”. Em nenhum momento, essa transição de personalidade fica realmente aberta. Dessa maneira, a obra parece nunca muito bem entender se está fazendo uma produção sobre um ser dúbio ou tentando desmascarar o racismo social. De qualquer forma, não funciona de nenhum dos dois jeitos.

Essa confusão estética e temática faz com que a narrativa pareça apenas uma colcha de retalhos sem muitos caminhos para ir. Prado até acerta ao trazer uma direção com muita câmera na mão e também salientando uma espécie de vazio emocional dentro da cidade. A sequência inicial, aliás, traz um olhar bem interessante na perspectiva de um perigo eminente, mesmo ele nunca existindo – algo próximo do feito por Clint Eastwood em Sniper Americano. O maior problema é toda essa construção visual ser amparada em um universo vazio na sua proposta.

Faltava para Macabro conseguir realmente entender a discussão que acontece em seu próprio filme. Ao não dar uma base para fazer sentido as mudanças futuras, especialmente de Teo, o produto final parece reforçar um racismo sistêmico praticado pela polícia, de todas as formas e em todos os lugares. Nem a possibilidade de fazer um thriller com esses elementos faz reverberar algo dentro da trama, já que toda nova situação apresentada nunca é resolvida. Assim, o longa parece só olhar com desdém para os preconceitos que tanto crítica em cenas esporádicas ao longo de quase 2 horas.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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