Crítica – Não Olhe Para Cima

O absurdo tomou conta das nossas vidas. Diante de uma doença mortal, muitos decidiram simplesmente não acreditar na existência dela, mesmo enquanto os corpos eram empilhados, e alguns líderes adotaram posturas negacionistas. Até mesmo diante da montanha de evidências que se formava, isso quando não empurravam medidas ineficazes para conter a transmissão do vírus. Recentemente, o Ministro da Saúde do Brasil declarou que a morte de crianças não justifica que elas sejam vacinadas.

Esses são só os exemplos mais óbvios e recentes, mas vale olhar também para toda reação relacionada às mudanças climáticas, ou a falta delas, e perceber que, mesmo diante da catástrofe, sempre vai ter alguém querendo empurrar sua agenda ou manter o mundo girando como se nada estivesse acontecendo. Mesmo quem quer encarar o assunto de frente está sujeito a ter que ser um pouco absurdo para conseguir o que deseja. É esse contexto o motor narrativo de Não Olhe Para Cima, que lida com tudo isso, mas sem esquecer do aspecto bem humano disso tudo.

No longa, os cientistas Randal Mindy (Leonardo DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) fazem uma terrível descoberta: um meteorito entre 5 e 10 quilômetros de diâmetro está vindo em nossa direção, e, em seis meses, ele irá colidir com a Terra e extinguir toda a vida no planeta. Ao divulgarem essa notícia da maneira que podem, eles fazem outra descoberta pavorosa: aqueles que podem fazer algo para mudar essa situação não se importam muito. Outra parte até liga, desde que eles possam transmitir a informação da maneira mais adequada possível, o que não é exatamente fácil diante do cenário.

Seria fácil apresentar uma história binária, com um lado “malvado”, querendo esconder o apocalipse, e os “bonzinhos”, lutando para jogar luz na verdade, sendo impedidos pelo estado absurdo das coisas. Mas Adam McKay consegue dosar bem as coisas, explorando questões estruturais da sociedade capitalista, sem termos “vilões” no sentido próprio da palavra e sempre navegando entre o rídiculo e o palpável. Por exemplo, um dos motivos para a presidente Orlean (Meryl Streep) ignorar os apelos do cientistas se dá por uma complicação com o seu candidato para Suprema Corte americana, algo não muito distante da realidade, mas acontece que o tal candidato é um ex-ator pornô que envia nudes para a presidente, adicionando o elemento do ridículo da situação.

As atuações acompanham esse balanço, com alguns personagens funcionando como uma espécie de “âncora” do real, como outro cientista, Teddy Oglethorpe (Rob Morgan), apresentando atuações mais comedidas, enquanto outros, como Streep e Jonah Hill, interpretando o filho da presidente, são distintamente mais caricatos. A dupla principal também transita dessa maneira, e a atitude deles acaba informando muito dos seus arcos na narrativa. Se Lawrence é a mais “séria” do elenco, sendo sempre aquela que vai ao cerne do assunto – por isso mesmo é a que mais sofre pela sua postura -, o personagem de DiCaprio, cujo comportamento navega esses dois campos, acaba sendo seduzido pelo espetáculo e acaba colaborando um pouco para o agravamento da situação.

Essa sedução pelo espetáculo acomete também Não Olhe Para Cima, mesmo que muito brevemente, ao dar espaço para que uma cena inteira consista em um show da Ariana Grande. Numa trama que, entre outras coisas, trata de como a necessidade de espetáculo pode atrapalhar esforços genuínos de se fazer algo – há toda uma subtrama de um jornal que abandona a história porque as redes sociais não reagiram bem ao assunto – fazer justamente isso, sem tirar sarro da situação, soa um tanto hipócrita.

Mas Não Olhe Para Cima encontra sua força na humanidade no meio disso tudo, cerceada pelos absurdos ao redor. Aqui e ali ao longo do filme, McKay insere imagens do cotidiano e do planeta como um todo, pessoas vivendo o seu dia a dia, assim como os animais em seus afazeres. O que poderia ser algo deslocado, culmina em uma singela cena final, onde toda aquela farsa e absurdo dá espaço para a mais humana e banal das atividades: um jantar em família. “Nós realmente tínhamos tudo, não é mesmo?”. Essa frase ressoa em diversas maneiras nos momentos anteriores, tanto nos esforços em evitar o impacto do meteorito, abortado em favor de medidas mais lucrativas, quanto na sociedade que vive à base da distração e do entretenimento, que nos faz perder de vista aquilo que mais importa: uns aos outros. 

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