Crítica – Notre Dame

A cena inicial de Notre Dame denota uma espécie de tragédia anunciada. Enquanto vemos diversos elementos de catástrofes ou acontecimentos ruins na televisão, lidamos com o pós noite de amor entre Maud (Valérie Donzelli) e Bacchus (Pierre Deladonchamps). Ambos separados, mas com dois filhos, parecem temer um pouco do que poderá acontecer quando as crianças observarem eles juntos. Seria uma reparação? Um novo laço estaria se formando? Difícil dizer. A base do momento vem através de uma certa ironia que irá ocorre a qualquer instante, algo que também se encontra onipresente em todos os acontecimentos da obra.

No filme, acompanhamos Maud ao, em um mal entendido por um concurso da prefeitura de Paris, ganhar a possibilidade de reformar o pátio da catedral de Notre Dame. Voltando com essa perspectiva em mente, após tempos conturbados em seu trabalho como arquiteta, ela se vê em um gigantesco mar de acontecimentos que envolvem o retorno de Bacchus a sua vida, o reaparecimento de um amor da juventude, além da necessidade de cuidar do crescimento de seus filhos. Tudo isso pautado em uma busca de, principalmente, compreender em que momento da vida ela, como mulher, está.

O papel especial do desenvolvimento de Notre Dame é, essencialmente, a tragédia. A cineasta Valérie Donzelli, que interpreta a protagonista, parece estar em busca de entender o estágio mais profundo de complexidade na vida de uma pessoal após diversos acontecimentos. É complicado já que nunca fica claro se todos foram realmente positivos, negativos ou mais, visto que estamos em contato com uma personagem que ainda não se decidiu nem o que quer. Toda a ideia da vitória no torneio ganha contornos ainda mais difusos ao ela perceber que não sabe até que ponto pode chegar de sua carreira. Ao mesmo tempo, também lidamos com uma persona que está atrás de compreender o que significa o amor na sua vida.

Dessa forma, vemos um filme que não se limita a protagonizar uma simples característica dramática desse mundo ao redor de Maud. Ele é composto por diversos elementos menores que se transformam só em maiores a cada novo diálogo. A direção sabe brincar bem com isso, dando espaço para uma estética que usa e abusa de elementos do primeiro cinema, do teatro e da televisão. Vemos desde telejornais exibindo a reconstrução da catedral, além de brincar com o espaço cênico como se fosse único, de um teatro filmado. Isso tudo compõe um universo especializado em não ter sido inteiramente fundado. Enquanto a Notre Dame permanece ali firma, a vida da personagem principal é muito mais fluída.

Ao brincar com a tragédia anunciada da vida dessa mulher, Notre Dame se entende como uma obra extremamente líquida – usando um termo de Zygmunt Bauman. Ao não ter um fluxo narrativo próprio, acaba faltando uma certa identidade, colocando os elementos da construção dramáticas um pouco sem relação tão forte com essa estética mais “estranha”. Mesmo assim, Valérie Donzelli coloca um arco de personagem quase de refluxo, já que cada nova informação que a protagonista assume, ela também as coloca para fora, nunca absorvendo inteiramente esse mundo. Desse jeito, em um mundo tão retroalimentado, vemos uma obra que se relaciona fortemente a um mundo perdido.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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