Crítica – O Homem Invisível

Spoilers do filme no texto

A primeira e a última cena de O Homem Invisível se conectam de uma forma muito forte. Em dois momentos distintos, seja formalmente, seja em temos de narrativa, o diretor Leigh Whannell busca maneiras de explicar situações de dominação. Na primeira, Adrian (Oliver Jackson-Cohen) está deitado na cama e não percebe a fuga de sua esposa, Cecilia (Elisabeth Moss). Ela, com pouco barulho, consegue modificar todo o necessário para que o marido não preste atenção, encontrando sua irmã em uma estrada. Devido a demora dela, Adrian aparece e dá um soco, quebrando a janela do carro. A dominação não é imposta fisicamente, mas sim psicologicamente na situação. Na sequência final, Cecilia mata Adrian, mostrando sua completa dominação, com uma subserviência do homem pela sua gravidez. Sua dominação encontra-se em um nível físico – a morte -, porém se relaciona ao psicológico.

A história do longa é dividida em duas partes bem claras, ambas conectadas pela relação da dominação masculina. Essa é grande disputa em torno da obra, sobre a forma como essa dominação é exercida. Leigh trabalha ela em dois aspectos bem específicos: um de espaços e outro tecnológico, e eles irão conectar as duas partes do filme divididas especificamente nas duas horas. A primeira, vai sob o olhar de uma mulher que pode estar até paranóica. Como seu marido, aparentemente morto, poderia a estar seguindo invisível? Ela não é creditada e aceita sob nenhum aspecto, sendo levada a ideia de loucura. Whannell não tem medo de mostrar a força dos seus relatos (sempre com muitos closes, quase trazendo a importância da fala). Aliás, é interessante como Cecilia é um ser quase morto para os personagens dentro da trama. Seu discurso, sua defesa, tudo pouco importa para quem quer que seja. A culpabilização da vítima é inserida tematicamente assim.

Nesse mesmo período, há uma busca pela disputa espacial muito clara. Nesse sentido relembra até obras como A Hora do Lobo, de Ingmar Begman, ou Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg. Os cenários, mais do que figurativos, servem como forma de um desenvolvimento claustrofóbico da circunstância. Interessante como O Homem Invisível quase inverte isso em alguns instantes, como quando a personagem pega um carro fora da casa do amigo de sua irmã, local em que ela poderia estar mais exposta. Porém, para uma vítima, é possível estar menos exposta fora do lar do que dentro dele. Cecilia retorna então para seu lugar de maior desafeto: sua própria casa. Lá, sabendo que nunca será percebida (como sempre seu discurso não é ouvido), esconde a roupa de Adrian em um lugar óbvio. A encenação, misturando tensão e um lado bem claro para construção disso (close dentro do armário e na porta), deixa tudo aberto como mesmo suas obviedades não serão ouvidas.

Na segunda parte temos uma obra voltada para o lado tecnológica. O embate vai para a questão de como a roupa do marido se impõe. Seu design, cheio de olhos, como se fosse inevitável fugir, a transforma em um ser fadado a perseguição. Além disso, o ambiente do hospital psiquiátrico tira as questões sobre suspense mais da frente. A relação toma então um caminho da ação, especialmente pelo olhar de uma tentativa de reação da protagonista. O enfoque no caminho tecnológico, aliás, traz embates contemporâneos sobre formas de assédio e violência contra mulheres, como divulgação de fotos íntimas ou boatos, além de descrença nos discursos das vítimas – algo recorrente também na primeira parte. Assim, a obra deixa claro como o domínio de Adrian é extremamente poderoso, a ponto dele possuir quase super-poderes a lutar contra guardas, todavia acabar fugir de Cecilia ao final da cena. Como única voz de enfrentamento ao posicionamento dele, ela torna-se mais potente que qualquer um.

Dessa forma, O Homem Invisível traz um debate claro sobre a dominação masculina em corpos e espaços de uma mulher. Ela, fruto de um relacionamento abusivo e com agressões, vive eternamente em um ciclo vicioso, não conseguindo ultrapassar por ele nem com sua morte. Mesmo que essa tivesse existido, o lado do dinheiro ainda gera uma complexidade a mais, para demonstrar toda sua dependência financeira. Leigh Whannell é claro em não trazer soluções, apenas buscar uma dinâmica para sua situação. Em sua direção, excessiva no formalismo vislumbrando certas obras recentes do gênero como Hereditário, de Ari Aster, olha para um caminho de um eterno conflito dos domínios sociais. Para muitos, todo o roteiro e a história pode parecer óbvia, porém, não é isso que vemos quando essas mulheres violentadas são ditas como verdadeiras. O relato da vítima nem sempre é claro, nem sempre é ouvido. Na verdade, ele é, geralmente, invisibilizado. E os donos da violência, seja ela física ou psicológica, tornam-se invisíveis na sociedade.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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