Crítica – O Paraíso deve ser Aqui

Em uma das cenas de O Paraíso deve ser Aqui, o diretor Elia Suleiman, também protagonista da história, observa uma loja do outro lado da rua de sua casa, onde uma passarela de moda é mostrada. Mulheres vão e vem chegando próximos ao led que passa o vídeo, enquanto ele tem uma visão julgadora sobre essa circunstância. Suleiman, que é palestino, parece quase rir de toda a cenografia dessa relação cultural da França perante sua própria cultura. Esse choque faz parte de uma contemporaneidade, porém até que ponto isso é a realidade do mundo? Qual o ponto da loucura da modernidade?

Nesse sentido, vemos a história simplesmente de um homem vagante, instigando-se por diversos aspectos dessa sociedade parisiense. Ele busca traçar paralelos entre a vida dos dois países, todavia quase só enxerga um certo caminho de uma conurbação entre indivíduos. Isso porque os seus encontros com outras pessoas são sempre complexos. O homem regando plantas, de descendência muçulmana, assim como o casal de japoneses que o encontra pela rua. As cidades do mundo atual não são mais habitadas por algo único, mas sim por essa relação complexa e difusa entre os diversos povos. Os corpos são sempre renegados como uma amálgama de nacionalidades e vivências.

Em alguns instantes, por exemplo, vemos o cineasta julgar relações sagradas da cidade francesa. Um desses exemplos é seu encontro com o Louvre, um monumento extremamente simbólico. Essa cena, de uma veneração artística ainda dessa relação entre as diversas culturas, pode ser inteiramente contrastada com o momento no qual Elia tem seu filme rejeitado por uma espécie de produtor. Até qual o ponto de interligação entre ambas as artes? Seria possível uma proliferação ou, simplesmente, uma tentativa de existir por parte da arte palestina? São situações distintas, porém que ilustram um ideal de mundo composto sempre numa quebra desse universo.

As relações mais interessantes acontecem dentro da fotografia de Véronique Lange, que coloca Elia Suleiman quase como um deus cênico. Ele sempre está presente no centro, idealizando julgamentos internos e ainda sem falar nenhuma palavra. Sua relação nesse meio social é sempre de um quase espanto por sua conexão das diversas nacionalidades. Esses instantes ainda são corroborados por outros como quando diversas pessoas compram armas em uma espécie de supermercado, assim como a chegada de um anjo perseguido pela polícia ou até uma possível moradora de rua tirada da possibilidade de se transportar pela cidade. Essa urbanidade é muito mais um centro de enclausuramento do que de liberdade.

Tentando deixar tudo tão próximo, o fim ainda reverbera quase uma realidade própria da forma do cinema olhar para essa mesma conexão. A importância é muito mais dada a uma visão conectada de mundo do que propriamente uma tentativa etnográfica. Aliás, o diretor, do mesmo modo, percebe-se como um ser conectado com tudo isso. Uma sequência dentro de uma balada ainda reverbera de um jeito mais contundente esses elementos estéticos da contemporaneidade. Afinal, a criação de uma identidade na atualidade de mundo não é mais consolidada pelo legado de país, porém sim no comportamento de vivências.

Qual seria o paraíso? Aliás, estamos todos no mesmo lugar? Até que ponto podemos nos considerar cidadãos de mundo? Essas são algumas das discussões propostas em O Paraíso deve ser Aqui. A conurbação, mais costumeira entre bairros da cidade, agora acontece nos próprios corpos sociais. O limiar entre bem e mal acontecem até mesmo em uma esquina desse cotidiano. A ideia do rural mesmo, de um espaçamento e das plantações, agora é cada vez mais conectada a uma nova maneira de pensar dentro desse mundo. Elia Suleiman parece quase preocupado. Entretanto, assim como seu personagem, não tem palavras para descrever – e nem entender – a atualidade de mundo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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