Crítica – Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa

A primeira sequência de Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa dá o tom do que veremos na sequência. Vemos a protagonista Anna (Riva Krymalowski), uma criança em seu auge da idade infantil, brincando com alguns colegas após uma apresentação de teatro. Tudo aquilo poderia soar natural, mas parece super controlado por algum clima que não é possível ver diretamente. Assim que a menina chega em casa, é percebido que a realidade não é tão colorida como esse mundo parecia prever. Em um tom extremamente frio do ambiente, a ameaça que antes parecia distante, agora se aproxima a porta. Hitler não é alguém mais tão longe assim.

Por fazer parte de uma família de comunistas e judeus, ela precisa fugir com seus pais de Berlim em meio a ascensão do partido nazista. Inicialmente, vão para Zurique, na Suíça. Depois, a fuga deles não tem um local apenas, mas passa a ser uma busca por sair dessa realidade no seu redor. Vemos toda essa construção da fuga de uma vida já consolidada em um ambiente sob o ponto de vista da pequena garota.

É curioso como a diretora Caroline Link, já vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, analise toda a narrativa do ponto de vista bastante infantil, porém duro. É diferente, por exemplo, de como essa perspectiva vai aparecer em Jojo Rabbit, e sim se assemelhando a longas como O Menino do Pijama Listrado e A Vida é Bela. A ideia da trama é girar sobre uma fuga, uma busca por um novo lugar para se chamar de lar. E isso não acontece apenas com a família de forma conjunta, mas também sob uma perspectiva única da menina – a qual parece não entender muito bem o porquê de tudo. Da mesma forma, as diferenças dela para outras pessoas, a também fazem se sentir sempre isolada nesse universo que a rejeita.

Um dos momentos mais marcantes em relação a isso é a adaptação na nova escola. Suas tradições – especialmente sobre o papel da mulher – parecem algo de outro mundo para aquelas crianças. De que forma se adequar a essa perspectiva de perda total de tudo, inclusive de si mesmo? É através disso que a menina vai tentando se agarrar nas diversas possibilidades de se manter ativa e tentando entender esse universo. De certa forma, há um êxito no longa em conseguir desenvolver esses elementos de maneira a entender como a personagem está naquele ponto.

Entretanto, apesar de ser baseada em um fato real, é impressionante como Link trabalha os acontecimentos em Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa de forma extremamente genérica. Parecemos estar vendo algo que já assistimos a outras tantas vezes, sem realmente entender o peso disso tudo para aquela garotinha. Falta tempo para um maior desenvolvimento das relações dela com Berlim, sua terra natal. Até que ponto tudo que ela é no momento que sai de lá foi construído ou é algo da sua família? As perguntas parecem nunca realmente responder com clareza essas perspectivas.

Ao fim do filme, percebemos que os elementos desenvolvidos parecem estarem muito mais preocupados em deixar clara uma perspectiva melodramática desse universo do que propriamente desenvolver ele. Os dramas sofridos pela pequena Anna fazem sentido e se tornam palpáveis a todo momento que ela é confrontada por isso. Todavia, tudo quase parece em vão, já que o mais importante que Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa busca é desenvolver a relação da perda da pequena protagonista. E nisso, há uma falha bem clara.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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