Green Book: O Guia é um filme inofensivo dentro da sua temática tão delicada

Em um dos momentos inciais de Green Book: O Guia, vemos o personagem Tony Lip (Viggo Mortensen) jogando fora dois copos usados por pessoas negras em sua casa. É um personagem descaradamente racista, sem medo de exibir seus preconceitos. Porém, sua gana em conseguir dinheiro e realizar falcatruas parece ser ainda mais potente. Por isso, seu trabalho como motorista pode ganhar uma elevação profissional ao conduzir o pianista negro Dr. Don Shirley (Mahershala Ali) em sua turnê pelo sul dos Estados Unidos, área extremamente racista.

Apesar de uma sinopse bastante apelativa em seu debate temático, o filme parece esquecer todo esse discurso do racismo velado de Tony logo na conclusão de seu primeiro ato. O personagem, ainda receoso, se mostra muito alerta e até contente pelo fato de trabalhar com Shirley. Esse segundo, sempre refinado financeiramente e culturalmente, está aberto a uma amizade com o motorista. Até existe uma certa tentativa em um lado mais técnico de explorar essa proximidade aos poucos, principalmente ao buscar, inicialmente, elementos da fotografia para separar os personagens e depois colocá-los sempre em mesmo plano. Porém, tudo parece uma fuga da própria produção, como se não encaixasse dentro desse universo cênico. Dessa forma, o longa determina claramente como não busca explorar uma abordagem mais diretas de uma micro relação mais individual, porém quer tentar entender todo esse sentido racial em uma dinâmica social claramente. Essa inofensividade comportamental da obra coloca ela em algo bem mais padronizado do que realmente poderia ser.

O diretor Peter Farelly, acostumado a realizar comédias como Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros, tenta sempre brincar na relação do drama com a comédia. Se ele explora uma dramaticidade bem crassa nos momentos de conflito racial puro, também busca uma leveza substancial nas piadas, aparecendo de maneira pouco equilibrada no decorrer do enredo. Nesse primeiro ponto, é intrigante observar esses pequenos microcosmos sociais, como a cena em que batem em Don no bar, numa crescente problemática social dos Estados Unidos. Farelly até consegue satisfatoriamente falar sobre algo mais velado, todavia sempre acaba soando superficial na abordagem. Sendo assim, quando ele se torna mais direto, exemplificado pelo momento do restaurante no fim, essa forma parece sempre bisonha, sentindo uma falta de progressão para esse ápice climático.

Na parte cômica, o segundo ponto, é possível observar sequências que lembram Conduzindo Miss Daisy, em uma leveza dinâmica pautada, principalmente, pelas conversas no carro entre os dois e em cenas menores. A colocação das malas dentro do carro e a situação criada pela arma demonstram claramente esse objetivo catalizador da película. São dois elementos fundamentais na qual poderiam ser utilizados de maneira a potencializar o racismo, porém servem para fazer piada. Novamente, poderia até ser bem encaixado, mas parece sempre vazio.

Por se tratar de uma cinebiografia, existe até um elemento pasteurizador bem claro a servir a premiações de Hollywood. A última cena talvez seja o maior exemplo disso, sempre renegando uma questão maior. É realmente complicado decretar tal elemento como uma falha, quando parece mais uma oportunidade perdida. Toda a sua relação social é pautada em situações base, extremamente repetitivas ao longo da narrativa e também na história do cinema, como em Adivinha Quem Vem para Jantar?. Todas essas questões pouco abrem espaço a discussões e parecem mais querer encerrar os assuntos por ali mesmo, abraçando uma camada bastante inofensiva e pouco desafiante ao seu tema.

Green Book: O Guia é talvez uma das grandes oportunidades perdidas do ano. Será, sem sombra de dúvidas, um destaque nas grandes premiações, mas muito mais por um fator de agradabilidade geral do que realmente por uma qualidade narrativa, que é pouco apresentada. É um filme que até sabe bem explorar as situações do tema racial ao abordar uma ótica mais “realista”, por assim dizer. Porém, tudo acaba sendo submetido a uma carga clichê constante, tornando a obra até um pouco extasiante no decorrer de suas 2 horas e 10 minutos. Parece já ter nascida datada, antes mesmo de ter nascido para o mundo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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