Resenha – Correio Noturno (Hoda Barakat)

Fluxo. Essa talvez seja a melhor definição para o livro Correio Noturno, primeira publicação da escritora libanesa Hoda Barakat no Brasil (editora Tabla). E não no sentido mais similar ao cinema de fluxo, por exemplo, onde as obras parecem ser quase uma continuidade do tempo, mas sim no sentido literal da palavra. Barakat traduz uma espécie de sensação, pertencimento e histórico da questão dos imigrantes e moradores árabes no mundo. Sua trama não é bem uma trama clara, ao trazer diversas pequenas histórias. O olhar de um entendimento bastante complexo do universo em que essas personas vivem, percebe uma eternidade e presente ao mesmo tempo.

Cada história não possui bem fim, são sempre ligações. Todas são observadas do âmbito de cartas, o que traduz ainda mais esse sentimento de algo efêmero no tempo. Vemos desde homens condenados por escolhas do passado (como participar de torturas), até uma mulher que busca se dar bem na vida. A relação de uma busca propositiva por existir faz bastante parte da obra. Afinal, parecemos estar em contato com personagens que só buscam algo, uma simples vontade de viver. Eles erram e sempre estão em contato com seus erros. Aquelas cartas são uma espécie de tradução de um purgatório ou julgamento.

Barakat, então, faz uma espécie de mão dupla com esses seres. Enquanto vão atrás de uma redenção, de um espírito de vida, de uma necessidade de se encontrar presente no mundo estando em contato com os pecados, eles também são livres. Ao se deixarem abertos para possibilidades futuras, essa tradução do fluxo encontra-se mais presente. Esse lado livre pode estar relacionado a questão legal propriamente dita, por fugirem da lei e irem atrás da liberdade, ou até de amarras sociais. A liberdade corporal é também um fator fundamental para os personagens, que parecem estar sempre relacionados com toda a cultura de suas origens. A fuga da realidade é uma liberdade pessoal e única para cada um deles.

Apesar de ser uma leitura curta, é extremamente potente em sua mensagem complexa. Há uma ideia de não fechar possibilidades para as narrativas, por isso a escrita sempre traduz um sentimento de continuidade. A finalização da escrita, é apenas uma possibilidade para diversos outros novos mundos que se abrem. Aliás, o papel interessante que Hoda Barakat traz ao relacionar uma história com outra abre caminhos também para entendermos um funcionamento quase circular desse universo. A morte e o medo, quase onipresentes, geram uma espécie de lei do eterno retorno.

Com isso, essa ideia de um correio, como é trazido pelo título, um caminho que continua sem acabar. Estamos em uma estrada da vida com esses seres, que vagam pelo mundo sem esperança da realidade os ajudar. A autora traz quase uma análise antropológica e sociológica nesse quesito. A busca por um outro lugar, um ocidente “de oportunidades” ainda brinca com toda a complexificação desses protagonistas diversos. Correio Noturno é isso, um livro sobre protagonistas e vidas diversas. Essas, que não são únicas, mas sim continuidades de um mundo tão complexo quanto os acontecimentos individuais mostram. O fluxo da trajetória desses seres que acompanhamos é apenas um espaço. Esse, que irá continuar, sem fim e se repetindo sempre.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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