Gritos no escuro: a figura feminina e o cinema de horror

Você já viu essa cena antes.

Há um beco sinuoso e escuro. Talvez esteja chovendo. Talvez não. Mas, com certeza, a lua brilha no céu acima. Ouvem-se longos gritos desesperados, vindos de uma jovem bela, de roupas casuais, sendo perseguida incessantemente por um monstro ou um serial killer ou algum espírito. Não é exagero dizer que o gênero do horror não teria metade de seu poder se não fosse pela presença feminina em seus filmes. É a figura da mulher que, na maioria das vezes, carrega a história do começo ao final.

No entanto, ao analisar a representação que o gênero carrega para as mulheres, é possível perceber claramente um teor misógino neste tipo de cinema. Isso pode ser visto principalmente no final dos anos 70 e início dos anos 80, com a ascenscão dos slasher e dos rape-revenge. Em um estilo, há um festival de esteriótipos e uma promoção nada discreta de valores puritanos: todas as moças que bebem, fumam ou – “Deus me livre” – façam sexo (quem sabe até queiram fazê-lo) sofrerão uma morte terrível nas mãos do assassino, enquanto no segundo temos cenas explícitas e perturbadoras de abuso e violência contra mulheres, somente para que seus algozes sejam castigados de forma igualmente violenta depois. Um dos exemplos mais famosos do rape-revenge é A Vingança de Jennifer (I Spit in Your Grave, 1978), que foi definido na época pelo célebre crítico Roger Ebert como “Uma sacola vil de lixo… Não há razão para ver este filme senão ser entretido pela visão de sadismo e sofrimento.”

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Se nos tempos atuais ainda estamos cobrando uma presença mais assídua de mulheres no comando de filmes, imagine como isso era há 45 anos atrás. Seria a misoginia exacerbada no cinema de horror um reflexo dos diretores de seus filmes? A falta de diretoras proeminentes não é uma exclusividade do horror, já que toda a indústria do cinema sofre com a desigualdade de oportunidades entre gêneros.

Apesar de tudo isso, grande parte do audiência que consome estes filmes são mulheres. Em uma análise de audiência feita pelo site The Wrapmais de 53% do público consumidor do sucesso Invocação do Mal foi o feminino. Mama, de 2013, 63%. Podemos concluir, portanto, que apesar dos problemas de representação que o gênero possui, ainda é possível encontrar histórias sólidas sobre mulheres, dirigidas e estreladas por mulherescalcando o horror como um dos mais complexos em termo de diversidade temática, ficando atrás apenas do drama.

Um dos exemplos mais claros disso é Carrie, filme de 1976 dirigido por Brian De Palma. Baseado no livro de Stephen King, o longa explora o despertar da puberdade da jovem Carrie White, uma adolescente tímida e retraída com poderes telecinéticos que, após aguentar toda uma vida de abusos, explode em uma fatídica noite de formatura. Aqui, temos uma história que revolve quase que 80% ao redor de mulheres. O único homem minimamente relevante é Tommy Ross, que leva Carrie ao baile de formatura, mas só para agradar sua namorada, Sue Snell. Há um conflito entre a mãe de Carrie, Margaret, e sua professora de ginástica, Miss Collins: enquanto Collins quer que Carrie se torne uma adolescente segura e se livre de seus medos, sua mãe luta para mantê-la na prisão religiosa que tão cuidadosamente construiu ao longo da vida da menina. A mesma situação é espelhada entre a bondosa Sue Snell, que quer ver Carrie feliz e ajudá-la a se enturmar, e Chris Hargensen, que não satisfeita em humilhar a colega apenas por prazer, quer se vingar por sua maldade não ter passado despercebida.

Esse espectro também pode ser encontrado em filmes como O Exorcista e O Bebê de Rosemary. Com histórias ancoradas por mulheres, o pecado é um tema em comum entre essas narrativas. No primeiro filme, muita gente interpreta a situação da jovem Regan (Linda Blair) como o resultado do encontro entre uma criança e o pecado. No segundo, há o atrito direto entre a figura de um típico casal americano, sem ideais religiosos, lidando com as mais poderosas forças malignas do universo, enfrentando as maldades do Diabo em si: sobra para a pobre esposa Rosemary gladiar com um marido que passa a desacreditar tudo que ela fala (um dos exemplos pioneiros de gaslighting no cinema de horror) e forças infernais que tomam conta de seu corpo, seu casamento e sua vida.

É possível encontrar, no entanto, que o objetivo das mensagens e ideais disseminados por esses filmes não são tão claros. Muitas vezes, o que podemos interpretar não é que a ideia não é ligar o público ao algoz das protagonistas, mas fazê-lo ter empatia com a vítima – apelidadas de “final girls” no gênero do slasher – que, em algum momento, finalmente derrota o opressor.

Pode-se encontrar exemplos claros dessa tese desde o inicio do gênero. No clássico setentista Halloween, dirigido por John Carpenter, a protagonista Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) inicia a película com uma personalidade tímida e introvertida, principalmente se formos compará-la com suas amigas, que pensam em rapazes e festas. Ao fim dos 90 minutos de duração, no entanto, apenas Laurie se mostra resiliente contra o assassino, pensando de maneira ágil e lógica quando o perigo se aproxima. Obras mais recentes, como Corrente do Mal, de David Robert Mitchell, pega esses conceitos e regras sobre o corpo feminino e parece tecer sua trama em cima deles.

Na história, Jay é uma universitária que está em um encontro com um atraente rapaz. Não demora muito para que os dois transem. No entanto, o rapaz logo revela suas verdadeiras intenções: ao transar com Jay, ele lhe passou uma espécie de maldição. Enquanto ela não tivesse relações sexuais com outra pessoa, continuaria a ser perseguida por estranhas figuras anônimas – e se for pega, ela morre. Com uma direção certeira e uma construção de clima ímpar, o filme de Mitchell nos apresenta uma protagonista que não tem medo de fazer sexo, seja por prazer próprio, para salvar a si mesma, ou para salvar alguém próximo; desconstruindo então os ideias patriarcais de castidade e pureza merecedores de sobrevivência que antes se faziam tão presentes no gênero.

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A presença de diretoras comandando estes filmes também ajuda a mudar este cenário. Em 2009, Megan Fox era um dos maiores nomes de Hollywood. Alçada ao estrelado pelo sucesso de Transformers, os próximos projetos da atriz eram comentados e aguardados por fãs e críticos. Então, quando foi anunciado que a atriz estrelaria o horror Garota Infernal (“Jennifer’s Body” no original), escrito por Diablo Cody, que na época ainda colhia os louros pelo sucesso que havia feito com o coming of age “Juno”, foi criado um grande hype em cima do projeto.

Com direção de Karyn Kusama, o filme, no entanto, foi uma grande decepção para os estúdios. Com orçamento de 30 milhões de dólares, fora os custos publicitários, o filme custou para arrecadar U$ 16 milhões internacionalmente. Tendo em vista os nomes envolvidos, por que esse baque tão grande?  Assim como o horror canadense Possuída (Ginger Snaps, 2000), o filme de Kusama faz uso de elementos macabros e sobrenaturais para discutir adolescência, amizade, puberdade e principalmente a sexualidade feminina. Jennifer Check, a personagem dá nome ao filme, é uma jovem bonita e vivaz, que não tem vergonha ou medo de sexo, e quando a narrativa do filme parece querer puni-la por isso, todo esse cenário é subvertido. A base de Jennifer’s Body é a relação entre Amanda Seyfried e Megan Fox, uma relação escrita por uma mulher e sob a visão de uma, o que pode talvez ter influenciado uma recepção não tão calorosa do público, que provavelmente esperava um projeto mais condizente com as expectativas que um título do gênero carregam.

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A australiana Jennifer Kent, em 2014, trouxe muito material para esta discussão com seu filme O Babadook. À primeira vista, a estreia da australiana parece ser um típico filme de terror sobrenatural, com uma família em pânico e uma entidade decidida a assombrá-los. Mas o filme traz uma discussão muito mais ampla do que isso no âmago de sua história, que acompanha uma viúva, a exausta Amelia, que tem que cuidar de seu filho hiperativo Samuel sozinha. A situação se complica quando Samuel insiste que um monstro chamado Babadook, de um livro de histórias, é real e está atrás deles. O maior monstro desta película não é só a figura escura de garras afiadas, mas também a esmagadora pressão do luto, da tristeza. É a personificação do trauma tomando uma forma cada vez mais forte que insiste em ficar e não ir embora. Kent apresenta para o gênero do horror novamente mais uma icônica figura materna, desta vez com uma história menos fantasmagórica, ainda que assustadoramente realista.

Há ainda muitas diretoras que fazem trabalhos espetaculares e trazem discussões válidas e profundas ao cinema de terror, fazendo dele muito mais do que diversão escapista para adolescentes frequentadores de shopping. Assim como as outras divisões da sétima arte, o horror, o mistério e o suspense são compostos de personagens e histórias que merecem ser contadas e ouvidas, mas principalmente, histórias sobre mulheres. Ainda que seja inegável que a superfície traga visuais como sofrimento, tortura, abuso e gritos no escuro, no fim do sessão, o que vem por baixo – a força, a sobrevivência, a resistência – é que fica realmente marcado na pele de quem assiste.

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