Jack Ryan mostra que as séries de ação não morreram

Seriados de ação sempre foram predominantes na história da televisão. Os nomes são variados: de Super Máquina, Esquadrão Classe A, Missão: Impossível até o último grande sucesso, 24 Horas. Com o grande momento que o gênero vive nas salas de cinema, era inevitável que haveria uma retomada, mesmo que pequena, dentro do mundo das séries. Jack Ryan (também chamada de Tom Clancy’s Jack Ryan) traz uma atualização necessária, adaptando a obra em algo mais simplista e indo para caminhos do suspense em si. Isso mostra que, para que a ação voltasse a fazer sucesso nas telas de casa, era necessário fazer-se entender que menos é mais.

Em sua premissa, a produção não busca ser mirabolante ou complexa – apesar de acabar sendo. Jack Ryan (John Krasinski) é um ex-combatente de guerra e hoje trabalha como analista da CIA. Ele acaba descobrindo uma transferência monetária com valores enormes, expondo o terrorista muçulmano Suleiman (Ali Suliman), que possui um plano de dominação do mundo.

A trama é bem direta, conseguindo explorar logo em seus episódios iniciais todo aspecto necessário para que o público entenda quem são os personagens que irão carregar a história. Se, por um lado, Ryan possui todos os seus traumas passados, fato esse que é solidificado em uma cena do capítulo final, por outro ele é altamente benevolente e impulsivo. Esses gestos se mostram através dos diálogos e de evitar o conflito armado o tempo inteiro. Claro que a atuação serena de Krasinski consegue transportar ainda mais essa carga inteira conflitosa do protagonista, na qual possui uma impulsividade em busca de evitar um novo acontecimento trágico para os Estados Unidos. No lado rival, boa parte do desenvolvimento ocorre com Hani (Dina Shihabi), a esposa do extremista. Ela possui uma genuína preocupação com as atitudes do marido e em que ponto podem acabar. Porém, sobretudo, suas maiores atenções se dão aos filhos, que parecem nunca ter uma real noção do que está acontecendo. Aliás, a continuidade narrativa sobre essa gera um problema de seu esquecimento dentro dos arcos nas partes finais da obra, na qual ela se torna bem menos ambiciosa do que aparentava inicialmente. Esse lado ainda tem espaço para abranger a problemática do roteiro em não saber o que fazer com o personagem de seu filho, que sugere uma sugestão de rebeldia que acaba sendo jogada de lado nos últimos momentos.

Há também um teor patriótico fortíssimo aqui, algo bem direcionado à audiência estadunidense que verá o seriado. O clichê do muçulmano como sendo o grande terrorista rival é usado novamente e sempre rememorando grupos terroristas existentes no mundo, como o Estado Islâmico e Al Qaeda. O personagem principal chega a verbalizar, como falado acima, sobre o 11 de setembro, buscando gerar a comoção de um possível novo horror poder acontecer. Isso acaba por ser melhor trabalhado – já que Jack tem várias questões pessoais e internas com o Oriente Médio -, todavia existe sim uma carga comum. Inclusive, o plano do vilão é extremamente simplista e simplesmente jogado o tempo todo em tela, como se a dominação mundial e a realização de um atentado não possuíssem motivações maiores.

A ação é bem introjetada no enredo, porém muito mais como uma necessidade final, por parte do governo americano, do que realmente necessária de ser utilizada. A grande sequência nesse sentido, para se ter uma ideia, acontece ainda no clímax do primeiro episódio. No grande ápice de tudo, busca-se uma cena na qual explora mais a tensão do lugar e do acontecimento (boa parte dela se passa em um metrô) do que os tiros propriamente ditos. Aliás, a produção dispõe de espaço para ir até o gore em certas horas, utilizando muito sangue em momentos específicos. Isso fica melhor exemplificado nas abertura de barrigas e nos tiros em si, visto que geram sempre manchas fortes sanguinolentas nas paredes dos ambientes.

Narrativamente, os showrunners Carlton Cuse e Graham Roland constroem de maneira eficaz o progressivo desenvolvimento dos fatos. O que mais acrescenta nessa coisa é a conjuntura de três atos precisos em cada um dos oito capítulos. A questão é que cada um se torna ainda mais relevante que o seguinte, porém existe um sentido interno nas partes que gera mais substância no final de tudo. Entretanto, como nem tudo é perfeito, eles parecem ter um problema em trabalhar com vários personagens na história, ao ponto em que diversas ideias e conceitos são pensados e explorados apenas para jogados fora no instante seguinte. Isso acontece não apenas com o caso do filho citado acima, mas também com a participação do presidente, com o flerte amoroso do protagonista (Cathy Mueller, feita por Abbie Cornish) e com os diversos capangas do inimigo. Essa fragilidade nos arcos cria uma sensação de uma possibilidade da existência de mais episódios no seriado, para que existisse algo mais amarrado.

No fim de tudo, a primeira temporada de Jack Ryan é bem melhor do o esperador. Conseguindo sair das comuns trocas de tiros, a investigação e os diálogos se tornam a vez na série, que não possui medo em arriscar um pouco mais. Apesar disso, poderia ter olhado com mais cuidado para sua trama e criar um maior desenvolvimento para todas as situações que acontecem. Talvez, quem sabe, a ideia era deixar para um segundo ano, já que as portas ficaram muito abertas.

4.0
  • Jack Ryan - 1ª temporada
4

Resumo

Bem desenvolvida e com alguns personagens realmente cativantes. Uma boa introdução para uma volta ao domínio da ação dentro das séries de TV.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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