Meu Querido Filho e a perda do humanismo

Há uma ideia que a arte possui um papel fundamental na representação humana de determinado período temporal. Assim como o Expressionismo Alemão representava uma Alemanha quebrada após a Primeira Guerra Mundial e o Realismo Poético Francês trazia uma perda da ilusão na França, Meu Querido Filho traz sentidos mais claros e diretos sobre a guerra contemporânea. Todo o conflito existente no Oriente Médio e países árabes gera uma necessidade de se fazer presente nas produções artísticas desses lugares, de uma maneira até natural. Por isso, ao buscar entender como esses conflitos geram situações problemáticas familiares, o filme se mostra como um retrato de seu tempo. Cru, real e triste, porém verdadeiro.

Dentro dessa história, passada na Tunísia, vemos uma relação familiar. Pai, mãe e filho vivendo de forma até bem relacionada e amorosa. Enquanto o patriarca vai se aposentar de seu emprego, o mais novo na casa está prestes a realizar o exame para entrar no vestibular, sofrendo todas as pressões desse período, além de lidar com o início da vida adulta. O problema é que o menino some determinado dia, deixando os pais ansiosos para descobrir seu paradeiro.

O comando aqui é de Mohamed Ben Attia, sempre com um toque bem lento em sua narrativa. Muito se tem falado em um retorno de obras humanistas e Ben Attia parece entrar nessa onda ao buscar entrelaçar sempre um lado extremamente humano e pertinente entre seus personagens. A figura do pai (feito por Mohamed Dhrif) é o ponto mais claro nisso na sua jornada em busca do filho. O diretor faz questão de mostrar cada pessoa com que ele se relaciona, sempre dando um enfoque para um lado positivo dessas. Existe, nesse quesito, um certo dualismo até intrigante, em trazer diversas situações catárticas emocionalmente e outras totalmente desoladoras. Todas centradas sempre na figura desse homem, muitos momentos aparecendo solitário em cena ou de forma totalmente centralizada.

O cineasta impregna um sentido bem claro de realismo ao não buscar um corte fácil, sempre trazendo planos longos e alguns sequências, remetendo sempre a uma solidão inevitável nesses acontecimentos. Entretanto, aqui esse elemento acaba trazendo uma certa repetição, fazendo com que a jornada da figura paterna destoe com o resto da película. É um desenvolvimento necessário ao realizar um estudo sobre essa relação familiar, mas que acaba sendo extremamente desgastada com o tempo.

Existe um espaço bem intrigante para falar sobre toda a questão de geografia política presente nesses meandros. Primeiro, isso se estabelece pelo mais novo, ao – inicialmente – haver uma suspeita de seu envolvimento com a ISIS, sendo confirmado posteriormente. A produção até tenta gerar uma situação mais grande nesse sentido, ao diversas vezes mostrar o personagem de Dhrif relatando que seu filho não é um terrorista. Em segundo, vai para um lado mais de uma ambientação cenográfica, como a cena do protesto e até a transição do segundo para o terceiro ato, no momento ápice da narrativa. Apesar de não se relevar explicitamente relacionável com esses aspectos da guerra, o subtexto e os olhares desapontados, como o da mãe em uma das sequências finais, remetem bastante até ao feito em Roma, de Alfonso Cuarón.

Uma das coisas mais intrigantes aqui é essa perda de humanismo trabalhada anteriormente. Aos poucos, parece tudo perder forma e até cor. Enquanto os enquadramentos do início buscam uma conexão fraternal, a fotografia de Frédéric Noirhomme começa a assumir barreiras entre os personagens, com os mais diversos elementos. Primeiramente, isso aparece ao fundo da tela, como latas ou vasos. Entretanto, aos poucos assumem papéis mais a frente, trazendo uma separação de tudo. As cores de roupas também reforçam esse conceito, aparecendo bem similares e se transmutando para grandes diferenciações.

Meu Querido Filho é um filme que entra na nova leva de resgate ao humanismo do cinema, porém indo a lados mais mórbidos. Aqui, há uma correlação mais fortalecida com o cinema político produzido por países árabes na atualidade, relacionando fortemente a Jafar Panahi. Não é uma obra brilhante, longe disso, mas traz uma reflexão altamente personalizada sobre uma situação atual. Como disse antes, a sétima arte é um produto de seu tempo e esse é um grande exemplo disso.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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