O Relatório de Brodeck e a condição humana

A filosofa alemã Hannah Arendt é a cunhadora do termo “banalidade do mal”. Esse conceito, que conta um pouco sobre algo intrínseco ao ser humano, fala sobre como a maldade pode se tornar banalizada, a ponto de se transformar em uma política histórica e até do próprio Estado. Arendt cunhou o termo em seu livro Eichmann em Jerusalém, que fala sobre o julgamento do militar nazista Adolf Eichmann e como ele usou no tribunal toda a ideia do mal como forma de defesa pessoal.

Bem, há muito tempo a maldade é relacionada aos seres humanos. Óbvio que se cria uma dicotomia entre o bem e o mal de maneira a gerar um inimigo, algo negativo sobre alguma outra pessoa sem um julgamento mais profundo de valor. Todo esse pensamento é relativo assim como a interpretação do mundo que nos cerca, nunca sendo só preto ou branco. Com isso em mente, o romance de Philippe Claudel, O Relatório de Brodeck, busca tentar discutir esse lado dos humanos que relutamos aceitar. Um lado aonde parecemos o tempo inteiro não tentar entender o outro, já julgando como uma forma de um certo preconceito. A obra de Claudel, sendo assim, está totalmente conectada com o mal se transformando banal.

Nessa adaptação para quadrinhos lançada pela editora Pipoca e Nanquim, o desenhista Manu Larcenet tenta, de forma bem direta, trazer esses debates a tona em uma narrativa totalmente focada na composição de quadros. Aliás, é até bem interessante como ele trabalha a arte sequencial de forma extremamente cinematográfica, buscando alguns planos mais abertos – como quando o protagonista Brodeck está andando – e outros mais fechados, nos instantes de potencialização dramática da sua história. E essa questão bem catártica da trama, também está conectada ao enredo, de contar sobre um personagem que conta a história da chegada e morte de um estrangeiro na sua vila. Com isso, ele busca conexões altamente pessoais por existir uma guerra acontecida a pouco tempo e ele ter sido prisioneiro nela.

Toda essa perspectiva da guerra, aliás, ainda exalta a “banalidade do mal”. Não é por acaso o objetivo de criar os carcereiros e soldados inimigos como figuras monstruosas no desenho, forçando bastante toda a força do carvão. O protagonista é tratado como literalmente um cachorro, a ponto de ter que andar de quatro e comer uma carne igual a dos animais. Como o mesmo diz, o seu instinto de sobrevivência ali parecia ser o mais importante, enquanto os outros na qual o fizeram de chacota, acabaram mortos. Porém, a obra busca dentro dessa perspectivas discutir qual realmente é o ponto aceitável disso tudo dentro da condição como ser humano? Será que realmente poderia ser retratado como glorioso o gesto desse personagem?

A construção do bem também é colocada de maneira bem direta na narrativa. Como estamos vendo uma perspectiva pessoal, visto que Brodeck está escrevendo a história, ele se apresenta como uma pessoa altamente benigna, totalmente diferente dos outros habitantes da região. Em conversas, mesmo quando esses o tratam de maneira mais aberta, como é o caso do prefeito e da mulher sabendo tudo sobre as borboletas, ele ainda enxerga um lado maligno dos indivíduos. Em um de seus escritos, ele ainda relata que se vê como a única alma boa naquele lugar, sendo julgado por todos a sua volta devido a esse motivo. E compara a uma situação reversa, em que existe uma pessoa ruim em um grupo de pessoas boas. A moralidade de todos os personagens é posta a prova a toda nova virada de página.

Ao tentar fazer um estudo da personalidade humana, a HQ ainda retrata como não aceitamos observar nossa condição ruim como humanos, a condição exposta e desnudada, como é relatado. Ao estrangeiro apresentar os mais diversos quadros pintados por ele com as pessoas da vila, elas destroem os mesmos. É uma relação total de anarquia e até uma alienação da própria condição. Possuímos medo, angústia, receio, tristeza, mas não queremos realmente ver isso. Pode-se até pensar em uma analogia com as redes sociais, no quesito de nunca mostrarmos por ela a nossa realidade, nossa real face. É o uso de um véu, de uma máscara social a todo instante para poder se fechar ao mundo de uma realidade.

O Relatório de Broeck é uma obra muito mais preocupada com suas discussões do que propriamente em uma trama por si só. Enquanto cria um enredo extremamente direto e preto no branco, ele tenta desconstruir os conceitos pensados pelos próprios personagens. Certas histórias buscam uma forma de entender melhor sobre a essência de um determinado protagonista, todavia aqui é visivelmente o macro realmente o mais importante. Brodeck é simplesmente um mero relator, uma história que será deixada e morta pelas futuras gerações. Afinal, realmente não buscamos como seres observar o lado ruim de sermos humanos. O problema é que esse lado é o que realmente importa.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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