Os Heimats e a nossa linhagem

Existe uma vontade inerente aos seres humanos de descobrir sua linhagem. Rememorar sua existência, dessa forma, é um jeito de entender diversas questões do presente, ponderando sobre o passado e a família. Assim, a alemã Nora Krug foi uma dessas pessoas. Ela, nascida em território alemão, porém vivendo nos Estados Unidos, sempre teve dificuldades de lidar com o peso do nazismo em seu sangue. Toda a relação com judeus, por exemplo, ela sente uma culpa, mesmo sendo casada com um. Então, em um determinado dia, ela decide explorar toda sua trajetória até li e ver a história da sua família. Será que eles já fizeram parte do nazismo? Será que eles eram preconceituosos? Lutaram na guerra? Com base nesses questionamentos, surge Heimat: Ponderações de uma alemã sobre sua terra e história.

O livro, lançado pela Companhia das Letras, é literatura, mas também é arte. Acima de tudo é um trabalho em uma HQ que busca misturar diversos elementos estéticos afim de elucidar ainda mais essa história. Por isso, o texto tem sua parte muito forte e presente nesse sentido, levando uma narradora em primeira pessoa e, ao mesmo tempo, alternando para a terceira, quando conta diversos casos de outros membros da família. Ao mesmo tempo é possível ver diversas fotos, rabiscos, outros desenhos e mais, na qual consolidam esse universo cultural do país europeu.

Foto: Rafael Furtado

Partindo desse princípio, Nora começa a realizar diversos pequenos questionamentos para chegar, de verdade, no ponto que quer: descobrir uma possível relação de sua linagem com o nazismo. O incomodo sentido é expressomde forma sempre pungente nas páginas, como se estivesse escrevendo um diário, de tão intímo e personalista. Para compor mais sobre, ela ainda realiza passagens menores – de uma página – comentando sobre “saudades da terra”, em que fala de diversas pequenas coisas famosas na Alemanha, como um esparadrapo, uma comida e etc. Aliás, é intrigante como ela usa essa imagem, especialmente de algo que tapa, para ecoar uma sensação de fuga daquela realidade.

Mas, o que significa “Heimat”? Bom, é difícil traduzir com muita certa, visto que existem diversas interpretações, todavia é possível pensar em ‘nação’, ‘lar’ e/ou ‘casa’. Essa sensação de pertencimento, tão necessária a sociedade pós-moderna, está presente em cada palavra ou pensamento da autora. Suas buscas parecem não ter um fim específico, com, inclusive, a mesma refletindo sobre (“Com qual motivo eu deveria buscar isso?”). O seu universo parece limitado enquanto não existem respostas claras sobre seu passado. O peso e a culpa sentimentos em cada um dos seus gestos parecem buscar alguma argumentação.

Quando as revelações começam a aparecer é aonde se chega no ponto mais forte da história. Apesar de trazer diversos sentimentos conflitantes a narradora, aquelas revelações parecem trazer um certo ar de verdade e realismo. Ao mesmo tempo que, devido a essa procura, ela estabelece relações com primos distantes e outros membros familiares na qual sequer sabia que existiam. A Heimat, dessa forma, acontece muito mais nessa construção de algo novo, do que na busca de modificar um passado acontecido.

Capa da HQ

Heimat: Ponderações de uma alemã sobre sua terra e história é uma obra sobre uma busca de entender a si mesmo. Olhando para o passado, talvez, traga relações muito necessárias a atualidade. Nora Krug sempre teve essa concepção em mente, por isso realiza essa incursão a própria trajetória de existência da sua família na Terra. Seus pais, antes tranquilos com aquilo, começam a perceber uma verdadeira inevitabilidade por parte da filha nesse objetivo. Afinal, há realmente um objetivo? Por que buscamos, afinal, nos entender? Respostas faltam para esses questionamentos, porém é de perguntar que o mundo vive, não é mesmo?

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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