Os talentos dos homens

É possível uma pessoa não ter talento? Bom e se, mais do que isso, a pessoa em si tivesse a consciência que possui talento algum? A partir dessa trajetória, Yoshiharu Tsuge conta uma espécie de autobiografia de ficção. Isso porque a história da HQ O Homem sem Talento, lançado pela editora Veneta, fala sobre um homem, logo após a segunda guerra mundial, na qual trabalha vendendo pedras. Esse fato parece relativamente banal – e acaba realmente sendo. Isso porque ele não consegue vender nada e sofre até uma certa distância de sua esposa, por ela não querer ser vista com esse na rua.

Esse personagem (podemos chamar do próprio Tsuge) vai, assim, em busca de entender qual seria o seu propósito. Ele, um antigo quadrinista, hoje não vê muito futuro dentro da arte, especialmente dos mangás. O motivo? A nona arte tornou-se totalmente uma indústria, algo apenas valorizado dentro de uma concepção capitalista. As pessoas, segundo ele, não buscam mais um aprofundamento quando estão em relação com um trabalho artístico, querendo apenas uma simplicidade de debates e conhecimentos. A partir disso, o protagonista agora busca uma nova relação com o mundo, vendendo pedras. Seria esse seu talento? Afinal, ele realmente possui talentos?

É nesse ponto que o trabalho temático de Yoshiharu ganha maior sentido. Seu personagem, apesar de estático socialmente e na relação de trabalho, nunca parece estar parado. Apesar de conviver nesse meio social um tanto quanto raso, suas buscar vão em torno de uma profundidade imensa. Não a toa, cada capítulo desenboca em uma conversa dentro desse microcosmo. Há quase uma poesia pungente em cada um dos diálogos, vendo um apreço nas pequenas coisas cotidianas e como elas são necessárias a existência. Uma pedra, por exemplo (remetendo bastante a mesma questão com a pedra em Parasita), traz significados sobre situaçoes passadas da vida das pessoas, assim como os pássaros fazem sentido na beleza da natureza.

Veja nossa resenha de Spinning aqui

A reflexão proposta vai muito em torno desse cotidiano. Antes muito rejeitado na literatura e mais ainda nos quadrinhos (como bem reflete Marcelo Quintanilha em um texto no prefácio), ela faz parte pungente das reflexões existências. Afinal, para que serve a arte senão valorizar os pequenos elementos do dia a dia? Por isso, esse ser principal é tão complexado e tão depressivo dentro da própria existência. Sua esposa aparece de rosto pela primeira vez apenas no capítulo que ele toma uma iniciativa própria, sempre desvalorizando ele anteriormente. Quando vai voar e fugir desse mundo – em um possível suicídio -, seu filho aparece. As amarras cotidianas são sua existência, apesar de serem também seu fardo.

Após todas essas exposições, a carga de desesperança prevalece no protagonista. Ele parece buscar alguma coisa, qualquer que seja, para fugir de um realismo. A obra até tem umas relações profundas, dentro disso, em um realismo quase complexo. Diferente de trazer essas relações para paralelos quase fantásticos ou algo parecido, aqui há um tratamento complexo disso tudo. Não se idealiza uma comédia, apenas a condição dramática perene da vida desse ser. Ele, na qual não vê sentido na continuidade, também está confortável nela.

O Homem Sem Talento é uma HQ totalmente complexada dentro da sua realidade. É uma obra que está constantemente trazendo conflitos, sempre na perspectiva do seu narrador-protagonsita. Yoshiharu Tsuge trata sua narrativa quase como um fardo, algo tão pesado de ser lido tanto quanto de ser acompanhado. Entretanto, os momentos de fuga de sua persona alocam uma perspectiva crítica sobre o futuro dos quadrinhos. Tsuge se vê preocupado nessa perda do comum na arte. O processo artístico precisa trazer isso como aliado, visto que sempre se orientou como isso para sua existência. As histórias comuns merecem ser contadas e buscadas, da mesma forma que as mesmas são vividas.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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